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Agora Chipre

Hoje, 11 de Fevereiro, os ministros das finanças do Eurogrupo vão-se reunir para decidir o "resgate" financeiro de Chipre. Este pequeno país do Mediterrâneo encontra-se numa situação muito frágil em consequência quer do crescimento desmesurado do seu sistema financeiro, quer da exposição deste sistema financeiro às ondas de choque gregas.

Ao longo do tempo o Chipre transformou-se num paraíso fiscal para o leste europeu, oque resultou num sistema financeiro oito vezes maior que o seu PIB – algo reminiscente da Irlanda. Além disso, a reestruturação da dívida grega
do ano passado impactou de forma grave o seu sistema bancário.

Acrescente-se a crise económica generalizada e temos este pequeno país nas mãos dosseus credores europeus. Até aqui nada de novo. Já vimos este filme de terror umas quantas vezes.

O que torna o "resgate" financeiro cipriota interessante são os termos em que este está a ser discutido, radicalmente diferentes dos anteriores.

Segundo o Financial Times osministros das finanças têm em sua posse um memorando secreto que considera diversas alternativas de "resgate". A mais interessante é obviamente a mais radical. Esta propõe duas coisas que são verdadeiros precedentes. A primeira é que este resgate não deve proteger os ativos financeiros dos agentes que não estejam abrangidos pelo seguro público aos depósitos. Os maiores depositantes, com depósitos acima da norma europeia de 100 mil euros, perderiam o remanescente. Aparentemente, esta medida afetaria sobretudo "investidores" russos, gente que não faz parte da zona euro. A segunda
proposta diz respeito a uma renegociação da dívida soberana cipriota imediata, com imposição de perdas de 50% aos detentores privados. A dívida
cipriota seria assim de 77% do PIB em 2015, contra os agora previstos 140%. Nada mal...

Não tenho grandes esperanças que o que venha a ser aprovado hoje na reunião do Eurogrupo seja algo parecido com estas propostas. Todavia, há três lições importantes a tirar.

A primeira diz respeito à nacionalidade doscredores. Aparentemente, quando estão em causa credores de fora da zona euro, onde se misturam as considerações geo-estratégicas, a UE parece ter
menos apetência para os proteger face aos estados soberanos.

A segunda lição diz respeito à inexistência de risco de contágio (coisa de qual não estou seguro) que permite mais graus de liberdade na forma como as negociações se fazem. Países que colocam riscos ao centro europeu, como Portugal ou a Grécia, ficam sujeitos a um açaime bem mais apertado. Paradoxal, não?

Finalmente, o corte na dívida e a necessidade de a colocar numa trajetória financeiramente sustentável é, depois da asneira continuada na Grécia e em Portugal, cada vez mais assumida pela União Europeia. No entanto, dada a composição atual dos nossos credores (com a troika com cada vez maior peso) não é expectável que o que venha a ser aprovado para o Chipre tenha qualquer efeito automático em Portugal.