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Ativistas do Occupy Wall Street Compram Dívida Pessoal de Cidadãos Americanos no Valor de 15 Milhões de Dólares

«O nosso principal objetivo foi difundir informação acerca do funcionamento deste mercado secundário de dívida», disse Andrew Ross.

Fotografia de Spencer Platt/Getty Images

O Rolling Jubilee [Jubileu Contínuo] gastou 400 mil dólares a comprar dívida aos bancos a baixo custo. Em seguida, anulou-a, isentando os devedores dos pagamentos em falta.

Adam Gabbat, em Nova Iorque

12 de Novembro de 2013

 

Durante o ano passado, um grupo de ativistas do Occupy Wall Street gastou quase 15 milhões de dólares a comprar dívida pessoal, no âmbito do projeto Rolling Jubilee, que visa ajudar as pessoas a pagar créditos pendentes.

O Rolling Jubilee, criado pelo Strike Debt Group [Grupo de Ataque à Dívida] do Occupy, no seguimento dos protestos de rua que se espalharam pelo mundo inteiro em 2011, foi lançado a 15 de Novembro de 2012. O grupo compra dívida pessoal aos bancos a preços reduzidos para, em seguida, cancelá-la, libertando os respetivos devedores do fardo do endividamento.

Comprando dívida a preços irrisórios, o grupo conseguiu anular 14 734 569, 87 dólares em dívida pessoal (sobretudo na área da saúde), gastando apenas 400 mil dólares. «Pensávamos que a proporção seria de cerca de 20 para um», explicou Andrew Ross, um dos membros do Strike Debt, e professor de análise social e cultural na Universidade de Nova Iorque, acrescentando que o grupo planeara, inicialmente, angariar 50 mil dólares, o que lhe teria permitido comprar 1milhão de dólares de dívidas. «Na verdade, conseguimos comprar dívida a um preço muitíssimo mais barato.»

Éa própria natureza do mercado secundário da dívida que permite comprar dívida a preços tão reduzidos. Perante falhas persistentes no pagamento de dívidas relativas a cartões de crédito, empréstimos ou seguros de saúde, o banco ou credor que emitiu os títulos acabará, eventualmente, por limitar o prejuízo, vendendo a dívida a terceiros. Estas vendas são feitas por uma fração do valor real em dívida — tipicamente, por cinco cêntimos por cada dólar — e as empresas compradoras tentam obter lucros cobrando o valor original ao devedor individual.

O projeto Rolling Jubilee foi concebido, sobretudo, como um «projeto de educação pública», declarou Ross. «Não temos ilusões quanto ao facto de 15 milhões de dólares não serem mais do que uma gota no oceano do mercado secundário da dívida, sem qualquer impacto no bolo total. Para além de ajudar algumas pessoas no processo — haverá, certamente, muita, muita gente bastante grata por ter -se visto livre destas dívidas —, o nosso principal objetivo foi divulgar informação acerca de como funciona o mercado secundário de dívida.»

O grupo dedicou-se a comprar dívidas relativas a despesas com saúde, e adquiriu os 14,7 milhões de dólares em três atos separados. A aquisição mais recente atingiu o valor de 13,5 milhões de dólares, correspondentes a dívidas médicas de 2693 pessoas, oriundas de 45 estados dos E.U.A. e de Porto Rico, de acordo com um comunicado de imprensa do Rolling Jubilee.

«Ninguém devia ter de endividar-se ou ir àfalência por estar doente», defendeu Laura Hanna, uma das organizadoras do grupo. Segundo esta ativista, as dívidas para pagar despesas de saúde contribuem para 62 por cento das falências individuais.

As caraterísticos do mercado da dívida impedem que o grupo consiga identificar os titulares da dívida que está a comprar, tendo de assumir os montantes antes de descobrir a identidade das pessoas abrangidas. Uma vez comprada a dívida, o Rolling Jubilee envia uma mensagem aos devedores, «comunicando-lhes que foram resgatados», disse Ross, cujo livro Creditocracy and the Cause for Debt Refusal [A Creditocracia e Argumentos para Recusar a Dívida] descreve os problemas da indústria da dívida e apela à formação de um «movimento de devedores» para resistir ao crédito.

O grupo tem recebido cartas de várias pessoas que viram as suas dívidas saldadas, agradecendo o favor. Mas, para os promotores da iniciativa, a verdadeira vitória consistiu em divulgar informação sobre como funciona a indústria da dívida. «Muito pouca gente tem noção de quão pouco os cobradores pagam pelas dívidas alheias. E éum dado com impacto na psicologia do devedor», argumentou Ross. «Ou seja, quando recebes uma chamada de um cobrador, e te éexigido que pagues a totalidade da dívida, jásabes que ele a comprou por um preço muito, muito baixo — tão baixo como nós comprámos. E isso permite-te conversar com ele de uma perspetiva moral bastante diferente…»

 

Texto original:

- Occupy Wall Street activists buy $15m of Americans' personal debt

 

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[Tradução de Mariana Avelãs]