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A Auditoria a que temos direito

Nos próximos dias 16 e 17 de Dezembro, vai realizar-se a Convenção de Lisboa, com o objectivo de instituir um processo de Auditoria Cidadã à Dívida Pública. Esta Auditoria é a concretização de um direito fundamental de todas e todos: o de saber o que estamos a pagar, o que devemos pagar e se podemos pagar. Isso significa fazer o levantamento e tratamento de toda a informação relevante, mas também tornar essa informação disponível e compreensível para quem tem de decidir.

A tarefa de auditoria é extensa. Em Portugal, a Dívida em sentido estrito está na sua esmagadora maioria titularizada, ou seja, existe sobre a forma de títulos que são emitidos pelo Estado como forma de financiar a sua actividade. Existe muita informação disponível sobre esses títulos, mas também muita que falta, nomeadamente sobre as operações que estão associadas a cada emissão, as condições contratuais e a forma como tem evoluído o stock de dívida nos últimos anos.

Essa informação é relevante a vários níveis. A estrutura de maturidades do stock actual afecta o risco de refinanciamento, o conhecimento das operações de gestão associadas a cada emissão é indispensável para obter um retrato completo do stock actual e as condições contratuais das emissões activas afectam a capacidade que o Estado tem de impor uma reestruturação a eventuais minorias de credores (dependendo da existência ou não de Cláusulas de Acção Colectiva, por exemplo).

O facto de grande parte da dívida estar titularizada significa que não é possível associar muita da má despesa que se fez no passado a emissões específicas de dívida (ou a credores). Os títulos de dívida pública financiam a despesa do orçamento do Estado indiscriminadamente, independentemente desta dizer respeito à compra de submarinos ou ao financiamento do Serviço Nacional de Saúde. No entanto, saber a quem se deve pode ser importante num contexto de reestruturação.

Por outro lado, o problema da dívida não é só o da dívida em sentido estrito. Muitas áreas da política económica têm afectado e poderão afectar a evolução futura do nosso endividamento. Os negócios ruinosos realizados através de Parcerias Público-Privado, o sub-financiamento e consequente endividamento de Empresas Públicas, as privatizações e consequente privação do Estado das receitas correspondentes, as operações de salvamento do sistema financeiro são outros aspectos sobre os quais se terá de debruçar uma auditoria cidadã. Porque também aqui as decisões a tomar são muitas e podem afectar de forma decisiva a evolução da nossa economia e dos nossos níveis de endividamento.

A questão determinante em todo o processo é a da reestruturação da dívida. É essa a questão a que teremos de dar resposta e a Auditoria serve essencialmente para informar e apoiar as escolhas que terão de ser feitas a esse nível. Hoje é evidente para qualquer pessoa que se debruce seriamente sobre o assunto que a nossa trajectória de endividamento é insustentável.

A questão é portanto a de saber se a inevitável reestruturação servirá para manter uma economia moribunda ligada ao respirador enquanto os nossos credores realizam receitas extraordinárias a partir da especulação ou se, pelo contrário, esses credores são responsabilizados e penalizados, em benefício de uma reestruturação liderada pelo Estado Português e centrada nas necessidades de promoção do crescimento e do emprego e na defesa do Estado social e dos direitos do trabalho.

É-nos frequentemente dito que uma reestruturação da dívida é impensável, resultará em danos irreversíveis para a nossa reputação e constitui uma violação de obrigações contratuais do Estado Português.

Em primeiro lugar, uma reestruturação da dívida é tudo menos impensável e constitui, pelo contrário, um facto relativamente banal na história económica, incluindo a mais recente. Essa história, aliás, demonstra que os danos de reputação dos processos de reestruturação de dívidas são muito menores do que nos é vendido, conseguindo muitos dos países que os levaram a cabo regressar aos mercados poucos anos (ou meses) depois. De qualquer forma, este argumento ignora o facto muito simples de que, actualmente, o Estado português não tem acesso aos mercados, estando dependente de um acordo ruinoso com a Troika para assegurar o seu financiamento.

Além disso, de acordo com as próprias previsões desta entidade (absurdamente optimistas), Portugal terá, no fim desta intervenção da Troika, uma economia mais pobre, um desemprego nunca antes visto e uma dívida… muito maior. Ou seja, ainda piores condições para se financiar.

Em resumo, a única coisa que nos garante a Troika é a recessão, seguida de outra intervenção da Troika. Na realidade, nenhum cenário coloca danos tão graves para a nossa reputação do que uma recessão prolongada e os riscos de desagregação social e política. Ninguém empresta a países arruinados.

Finalmente, a questão das obrigações contratuais. Este é talvez o argumento mais descarado de quem se opõe a uma reestruturação. Isso porque o que está a acontecer hoje em dia com as políticas de austeridade implementadas são violações contratuais várias, repetidas e continuadas. Os cortes nos salários da função pública ou nas pensões violam relações contratuais, aliás consagradas na lei, para já não falar da Constituição. Um pouco por todos os sectores, da cultura à saúde, passando pelas Universidades e pelos apoios sociais, relações de confiança estão a ser quebradas e direitos estão a ser desmantelados.

Assim, a questão que esta Auditoria terá de colocar ao país é esta: numa situação insustentável, quais os direitos que iremos defender, quais serão as prioridades, quem iremos proteger, quem iremos condenar? Deveremos proteger quem especulou contra a nossa economia, condenando milhões de portugueses à privação e à pobreza? Ou deveremos proteger os direitos que dão forma à nossa democracia, impondo pequenas perdas a quem nunca conheceu semelhantes dificuldades? A esta pergunta, nenhum cidadão hesitará em responder. Só uma auditoria séria e competente a poderá colocar a todo o país.

Texto também publicado no Esquerda.net

 

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)

Comentários

Ter um direito não se esgota em si próprio. Necessário será exercer-lo e se preciso for exigi-lo. Temo a dificuldade em conseguir algo se esta petição não for subscrita por notáveis. É o país que temos.

Ter um direito não se esgota em si próprio. Necessário será exercer-lo e se preciso for exigi-lo. Vai ser dificil conseguir algo se esta petição não for subscrita por notáveis.

Eu não estou nada interessado em discutir a titularização. Nem mesmo falar em reestruturação. Eu não quero areia nos olhos. Eu falo de divida e não de veículos financeiros de injecção de capital nos cofres do Estado. Quando subscrevo AUDITORIA À DIVIDA, quero significar DIVIDA. DIVIDA PURA E DURA. E aí quero identificar todos os items desse défice.
1º Quem ( empresas e pessoas singulares ), omitiu rendimentos e não pagou os impostos devidos
2º Clarificar quem comanda, faz funcionar, e mantém os offshores em actividade e quanto dinheiro por ano foge da economia por essa via. Esse dinheiro é português e não irlandês, madeirense, caymonense, virgem maria e outros truques e malabarismos cochichados por aí, representando valores muito acima do PIB, e iludindo para baixo a produtividade dos trabalhadores portugueses.
3º Corrupção ( obras públicas desnecessárias para satisfazer os interesses económicos de grupos e seitas partidárias, parcerias publico privadas, investimentos em hospitais e serviços que pertencem a entidades privadas- igreja com as misericórdias e outros truques que se servem dos "miseráveis portugueses" )
4º Fundações e Institutos- quanto nos roubam e a pretexto de quê!!!

Eu quero que se desmistifique a verborreia caduca e minimalista com um “core” de elevado pessimismo propositado, de que são exímios exemplos o sr mario cresspo e o medina carreira. É tempo de a intelectualidade de esquerda assumir um discurso em que trate os problemas pelo seu nome. Saber quanto ganha o medina e o mário, que propriedades possuem ( directa e indirectamente ) e desmascará-los pelas suas boas práticas. No suite 605 foi desmascarado o Soares dos Santos. Há que perseguir quem nos imputa pouca produtividade e avaliar se o roubo do nosso valor do trabalho não segue por essas capas protectoras. O meu objectivo é clarificar e não opacificar mais os problemas