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Auditorias e novos laços solidários na Europa

Todas as comunidades cidadãs europeias são, hoje, alvo de um consenso fabricado que impediu, até agora, uma compreensão mais rigorosa dos processos que estão a destroçar conquistas sociais e civilizacionais. Esse consenso está a ruir, lenta mas decisivamente. A emergência de auditorias cidadãs, na Europa de hoje, é uma consequência dessa barragem de artilharia ideológica e, ao mesmo tempo, uma resposta à pulsão austeritária de quem não conhece alternativas. Olhámos para baixo, para Sul, com cujos povos devíamos ter aprendido mais: no Equador, a «Auditoría Integral del Crédito Público», exemplo inspirador para quem não reconhece a ditadura da inevitabilidade; no Brasil, a incansável «Auditoria Cidadã», que trabalha, há dez anos, em substituição do Congresso Nacional.

A iniciativa grega é um exemplo paradigmático deste olhar renovado e resistente. Em Maio, ao lermos a declaração de Atenas, percebemo-lo: mesmo num contexto de degradação acelerada das redes e relações sociais, a solidariedade e a vontade de contrariar o inevitabilismo serão sempre mais fortes. Enfrentando um ambiente político hostil, a auditoria grega prossegue, passo a passo. O conformismo lógico já não é opção. Em Dublin, entretanto, a iniciativa-relâmpago, desenhada e posta em prática por duas associações para o desenvolvimento e um sindicato, já apresentou resultados preliminares, trabalho que precisa, agora, de ser complementado com mobilização social e propostas políticas. Na França, um colectivo amplo também já iniciou a tarefa de auditar à dívida; na Bélgica, existem sinais de que um grupo está em constituição.

Sabemos que a situação portuguesa tem as suas particularidades; devemos tê-las em conta e enfrentá-las sem medo. Esta é a altura certa para descobrir novos laços solidários. O nosso idioma comum é a resistência.

 

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)