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A breve calma antes da tempestade

É sabido que fazer previsões a curto prazo não é normalmente boa ideia, pois arriscamo-nos a ser rapidamente confrontados com as insuficiências da nossa análise. Mas uma coisa é certa: a crise bancária cipriota está neste momento, digamos, no intervalo – e a segunda parte vai ser animada.

Coloquemo-nos no lugar de um titular (cipriota ou estrangeiro) de uma conta (com menos ou mais de 100.000 Euros) num banco cipriota, com um mínimo de capacidade de movimentar o montante depositado assim que o banco reabrir – que é como quem diz, quando o acesso às contas for descongelado. Sabemos que: i) o Estado cipriota não dispõe da capacidade de garantir por si próprio os depósitos existentes (68 mil milhões de Euros), nem sequer  os de montante inferior a 100.000€ (30 mil milhões de Euros); ii) o primeiro bail-out (resgate) europeu, negociado durante o fim-de-semana, tem uma componente significativa de bail-in (penalização dos credores, neste caso depositantes) –  e, no plano inicial, por diversas razões aliás bem interessantes, nem os pequenos depositantes eram poupados, o que estabeleceu um precedente; iii) todos os outros depositantes do mesmo banco têm esta mesma informação; e iv) quando as contas forem descongeladas, os primeiros a transferirem os montantes depositados para local seguro (para a Holanda, para fora do zona Euro, para debaixo do colchão,…) mantê-los-ão intactos, enquanto aqueles que demorarem a fazê-lo serão apanhados num novo congelamento de contas e sujeitos aos termos de um novo bail-in. O que é que você faria?

A confiança no sistema bancário é um dilema do prisioneiro clássico – e a forma como a crise cipriota foi gerida politicamente empurrou o “jogo” para a solução não-cooperativa. É neste momento bastante provável que o sistema bancário cipriota entre muito brevemente em novo colapso iminente e, se isso acontecer, ou o BCE/União Europeia “nacionaliza” federalmente a banca cipriota, o que muda totalmente as regras do jogo daqui para a frente, ou Chipre vê-se obrigado a sair do Euro. Tudo isto por causa dos 5,8 mil milhões de Euros com que o Eurogrupo exigiu que os depositantes participassem no resgate – um montante tão insignificante à escala europeia, mas aqui com consequências potenciais de tal magnitude, que das duas uma: ou o Eurogrupo é de uma incompetência inimaginável, ou estamos perante um primeiro ensaio, deliberado, de uma saída da zona Euro na modalidade caótica e provocada pelas autoridades europeias.

Em qualquer dos casos, os dados estão lançados.

(Publicado originalmente em Ladrões de Bicicletas)