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Conversa para desmistificar argumentos neoliberais (I)

Estamos fartos de ouvir as razões que o Governo invoca, bem como os partidos que o suportam, sobre a Dívida, como se chegou a este ponto, e a necessidade absoluta de praticar a austeridade a níveis impensáveis, como única forma de o país poder voltar aos mercados (a cassette): é um enjôo de frases repetidas à exaustão, com o duplo objectivo de tentarem justificar as suas posições, mas sobretudo de, por via da repetição, inculcar essas ideias na cabeça das pessoas, para as tornar acríticas e crentes na bondade do caminho.

É por isso que vos convido a juntarmo-nos aqui conversando um pouco sobre essas frases. Todos sabemos ao que conduzem, mas nem todos teremos feito o esforço de “entrar” nas suas razões, no seu convencimento profundo. E daquele lado está gente que pensa, que estudou, que ensina, que dirige, que não é tó-tó (muitos são só isso mesmo...). Tentar percebê-los para além das frases feitas, ajuda-nos a ir mais longe na luta contra tais ideias.

Não tenciono esgotar o fraseado, nem o argumentário: não há pachorra! Convido-vos a ficarmos em torno das seguintes ideias:          

-  V. Gaspar é muito inteligente

-  não há dinheiro

-  a Segurança Social tem de ser completamente alterada

-  o desemprego é uma consequência da refundação do Estado

-  o despovoamento do Interior é inelutável.

Tentarei desmontar estas afirmações e a vossa intervenção ajudará a ver mais longe. Para não se tornar indigesto, abordaremos cada afirmação de per si em pequenos textos sucessivos.

A conclusão vai ser:

-   cuidado, porque esta gente pensa mesmo assim, e o desmantelamento do tecido económico e da coesão social do país é um objectivo político a alcançar a todo o custo;

- cuidado, porque esta política é acentuada pela sucessiva nomeação de indivíduos para funções onde, em condições normais, se exigiam pessoas com o sentido do serviço público, que são autênticos abutres cujo objectivo é transferir para o privado os bens do Estado nas melhores condições para o privado e em detrimento do interesse do Estado (Borges, Relvas, Arnaut, Moedas, Sérgio, etc.).

Ali, onde ficamos espantados com a total inexistência de vergonha, demoramos a perceber que não se trata de vergonha, mas de um objectivo político, de uma opção ideológica. Não foram feitos na mesma forma das pessoas normais e com princípios: foram feitos na forma de Chicago!

 

O Gaspar é muito inteligente

Os grandes mitos carecem de grandes figurantes (não disse “grandes homens”). Muitas vezes o mito começa no homem designado, naquele que foi escolhido! Há um que sobressai no emaranhado destas políticas, pela função que assumiu: o ministro as Finanças.

O Vitor é um homem muito inteligente e muito respeitado lá fora. Não gosta nada de ficar mal, e por isso criou esta almofada de reserva no OE, para não lhe acontecer como no OE de 2012, que foi feito à pressa logo que chegou ao Governo. Ele prefere jogar pelo seguro.

Primeiro, parece-me injusto cingir estes elogios a este personagem: ele não está sozinho nesta história. Onde ficariam, então, homens tão destacados como João Ferreira Machado (director da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa), António Borges (coordenador das Privatizações designado pelo Primeiro-Ministro, e colaborador do grupo Pingo Doce, além de ex-dirigente do FMI e da Goldman Sachs)?

Uns já deram provas, como é o caso de Gaspar e Borges: só vai àqueles lugares quem tem um especial ajustamento às linhas doutrinárias seguidas por aquelas organizações. Afinal, não foram essas organizações que levaram a Grécia, durante anos, a seguir aquela via de continuado e intenso jogo de sombras, a fazer de conta que as contas estavam bem, e a estimularem o brutal endividamento do país (com proveito para bancos e empresas dos países que comandam a União Europeia)?

Outros empenham-se briosamente em montar um ensino de elite (nada contra isso!) onde se respiram estas doutrinas. E com inteligência: recordo uma recente entrevista em que um dos docentes da FE/UNL se queixava da resistência que, por vezes, alguns políticos revelam em relação a essas doutrinas, mas que a sua aposta é formar aqueles que amanhã vão dirigir os países! Afinal, não andam longe da rapaziada de Chicago (se os senhores não gostarem desta aproximação, sempre me atreverei a dizer que talvez não tenham retirado todas as necessárias ilações das consequências dessa gente ter tentado aplicar essas doutrinas em países como o Chile (de Pinochet) ou a Bolívia (de Paz Estensoro), a Rússia (de Ieltsine), etc.).

Perdoem-me Teixeira dos Santos (Ministro das Finanças de Sócrates) e Vitor Constâncio (Governador do Banco de Portugal durante os governos de Sócrates e não só e actual vice-presidente do Banco Central Europeu): têm um encosto partidário diferente, embora lhes caibam responsabilidades fantásticas, desde logo na interpretação e na solução do BPN: estamos a pagar a incapacidade (ou falta de vontade?) de Constâncio na caracterização da inacreditável vida do BPN (pode-se falar em incapacidade a propósito de um homem que é guindado ao topo do BCE?); e a pagar o medo de Santos sobre a hipótese de corrida aos bancos se o BPN fosse deixado à sua sorte; mas também a opção (sua, ou de quem?) de não nacionalizar a SLN, sociedade detentora dos activos do BPN, …..

São um verdadeiro escol, uma casta superior, e por isso bem remunerada, acima da gente vulgar, muito acima, e sempre pendurados nas estatais tetas (mas falando como se não...).

Nenhum número, nenhum objectivo bate certo? Ah, mas são muito inteligentes, a realidade é que lhes foge: mas eles seguram-SE, castigando mais e mais, até que dê certo... De vitória em vitória, até à derrota final!

São gente fria, que elege o seu umbigo como centro do mundo, e que tem verdadeiro nojo da populaça, mesmo dessa que se acolhe infantilmente na classe média (nunca lá deviam ter chegado!). As pessoas são um mero acidente nas suas teorias, que pregam como científicas. Ao longo de décadas foram numerosas as experiências tentadas (Chile de Pinochet, …), todas acabaram por falhar, mas elas, as teorias é que estão certas. Até por isso, para provar isso, é preciso que resultem bem em Portugal (oh, como seria bom para o FMI, para o BCE, para este escol de notáveis portugueses...). Se estamos a afastar-nos dos objectivos, então carregue-se mais: aqueles que tiverem a sorte de sobreviver, hão-de ver connosco os amanhãs que cantam! Os outros, essa turba de pedintes, paciência...a vida é assim mesmo.

Qual é a razoabilidade desta doutrina? Aparentemente é um contrassenso: o capitalismo precisa de um consumo sempre crescente para assegurar os seus lucros por via da venda das suas produções; se os trabalhadores forem postos em condições de desemprego e de desvalorização extrema do valor do trabalho, não têm condições para consumir, e portanto caem os lucros. Ah, mas há outra coisa que é, para eles, verdadeiramente essencial: os trabalhadores têm de perder a mania dos direitos que lhe foram induzidos ao longo de dois séculos; vergando-os pela fome, essa mania acaba, e tornar-se-ão dóceis e submissos, e então sim, renovam-se as condições para os lucros. Dir-se-á: e esta mole de empresários pequenos, que vantagem há no seu desaparecimento? É a vantagem de não furarem o esquema dos verdadeiros capitalistas: se não existirem, não podem dar emprego... E depois desta obra completada, então sim, depois disso, a partir do nada, nascerá um mundo feito a seu jeito!

Este quadro não é ficção: ele foi tentado e, apesar dos resultados parecerem revelar a sua impossibilidade, continua a estar nestas mentes pré-anunciadas como brilhantes (sim, convém-lhes que o povo acredite na sua superioridade mental, para se pôr no seu lugar de acreditar que eles lá sabem o que estão a fazer. Veio-me à memória aquela frase de Salazar que rezava numa tabuleta no adro do meu liceu: “Se soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida.”). E é bom termos isto presente, senão não se percebe nada. Não se percebe que não contraiam um músculo da cara face ao desemprego e à fome, face aos despejos, face ao aniquilamento da economia e do tecido social. É que eles são mesmo assim (mesmo que vão assiduamente à missa...). E pior: estão sinceramente convencidos de que estão certos.

Quando se diz que a sua política não resulta, pensamos com o nosso quadro de valores. Mas no quadro deles, resulta e é por isso que eles a não largam: até agora já reduziram os salários, o Estado social e já entraram nas privatizações. Insistem? Pois, com certeza, eles ainda não acabaram a tarefa. É preciso consolidar a descida de salários, reduzir o Estado social a uma dimensão residual e concluir as privatizações. Ainda há muito caminho a percorrer – se os deixarmos.


Comentários

Vou tentar falar do que quase nada sei..
Tenho tendência a considerar (porque o sinto) que aquela frieza personificada (principalmente) pelo Gaspar, o mito tão bem analisado pelo VL, é fabricado jogando com a nossa psicologia. Tenta ganhar autoridade, aumentar o nosso medo, obter resultados entretanto, e vai funcionando. Esta droga é muito repetida e tambem é anestesiante. Já ontem, 11dez, anunciavam mais austeridade para as falhas do orçamento de.. 2013! Alem do intenso ritmo, inclui as palavras usadas (os "piegas", as "cigarras", a "refundação") que vêm de Chicago, a falsificação de dados (provavelmente a rever e denunciar em tópicos futuros desta série) e depois aquela recuperação da culpa ("gastámos acima das possibilidades") e da expiação dos pecados ("a austeridade é inevitável") com raizes religiosas.
O pior é que "..insistir em perpetuar o sofrimento não é a forma mais madura e adulta de resolver as coisas. É infantil (julgar uma política pelos sentimentos e não pelos atos) e destrutiva." Krugman, pr. Nobel, "Acabem com esta crise , já!", ed. Presença, 2012, pg217. Acho que um psiquiatra nos ajudaria agora na luta (não brinco).
E para compreender a frieza, lembrem-se que "..há uma infinita série de postos na Comissão Europeia, no FMI ou em organismos afins para os quais poderá ser elegível mesmo que seja completamente desprezado pelos seus próprios conterrâneos." A quem aplica Krugman (id, pg100) esta formulação? Acho que podemos fazer uma lista de nomes, mesmo só com portugueses, já eleitos ou ainda candidatos. Parece-me importante compreender, para iluminar os caminhos deste combate que travamos. (Alexandre Romeiras)