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A crise, a dívida e a culpa

[Publicado noPúblico de 27/9/2013]

É urgente assinar a petição elaborada pela Iniciativa de Auditoria Cidadã (www.auditoriacidada.info) que exige que os serviços oficiais pagos por nós auditem a dívida pública com a participação dos cidadãos. A IAC trabalha há muito para conhecer a dívida que serve de pretexto para as políticas de destruição do nosso país e das nossas vidas, mas os limites do trabalho de um grupo de voluntários não o permitem.

A crise que vivemos é uma profunda crise sobre a concepção do mundo e das sociedades. Chegámos aqui quase sem darmos por isso. Confiando na democracia. Chegámos aqui através de profundas transformações que tornaram a pessoa num recurso chamado capital humano.

Passarmos de pessoas a capital humano foi uma das transformações mais profundas, mais silenciosas e mais terríveis que nos trouxe ao que hoje vivemos: à pobreza que se instala na vida de muitos para que a riqueza cresça para alguns outros.A economia financeira é uma grande máquina que transforma os direitos sociais em créditos ou em dívidas. Não se luta por aumentos salariais, pede-se um crédito ao consumo. Não há direito à reforma, paga-se um seguro. Assim, alógica actual é a da transformaçãode um direito individual num crédito individual.

Enquanto os direitos sociais são uma conquista colectiva da luta dos trabalhadores, hoje o endividamento está presente, individualmente, desde que se nasce e até depois da morte. Trata-se de uma nova forma de controlo social.

E não nos venham com conversas pornográficas invocando que os nossos avós eram pobres, que o país é pobre e que a emigração e a pobreza são o nosso destino. Basta de fatalismos dos mais ricos para dominação dos mais pobres. Estamos em guerra, uma guerra longa e cruel. Há maquinaria pesada em acção. As armas são a exploração do trabalho e a sua precariedade,  a privação de direitos e o medo.

O medo do desemprego, o medo da doença, o medo de perder a casa, o medo da pobreza de mão estendida.

Os pobres entraram, pela acção do governo de direita, na nossa vida pública e no quotidiano, como se  de uma fatalidade natural se tratasse. A pobreza e a caridade que a consola. Os mesmos caridosos não hesitam em cortar salários e pensões e em lançar milhares de pessoas no desemprego.

O medo, manipulado como é, corrói a acção democrática, torna as pessoas obedientes e assustadas.É isso que os actuais poderes pretendem.

E a culpa? O que é terrível na culpa é que ela atribui ao medo, o maior mal que existe no mundo, um enorme direito. A culpa é subjectiva, cultural e civilizacional. A culpa sente-se. E tem um terreno fértil no catolicismo. Mea culpa, mea maxima culpa. Culpa de queremos uma vida melhor para os nossos filhos? Culpa  por queremos mais educação e uma vida digna?

É interessante constatar que F. Nietzche  refere que, em alemão, uma só palavra traduz os dois conceitos, dívida e culpa. Essa palavra é Schuld.

Aprendemos muito pouco com a história. As grande tragédias chegam com pezinhos de lã e com explicações mediáticas falsas e fatalistas. Dizia um cidadão muito rico,há alguns dias, que o rico é o que tem a política dentro da carteira. E não é?

Vivemos num país em situação de “resgate”. A palavra resgate significa (dicionário) ser prisioneiro, refém ou vítima numa operação militar ou civil. Estamos portanto prisioneiros. E queremos saber de quem e porquê. Os países (todos) sempre tiveram e têm dívidas externas. O que actualmente mudou é que o capitalismo vive a fase da absoluta rapina e que os juros sobem e descem de imediato segundo os acontecimentos políticos em cada país. Transforma-se assim a finança num superpoder absoluto sobre a vida dos povos, vida que procura paralisar e dominar. A Europa dança ao mesmo ritmo. Enquanto permite que as empresas criem sociedades fictícias e se instalem onde pagam menos impostos, impede que o Banco Central Europeu empreste dinheiro directamente aos países, obrigando-o a passar pelos Bancos nacionais que ficam, pelo caminho, com margens imorais de lucro.

Parece-me, e oxalá me engane, que tanto os sindicatos como os partidos políticos de esquerda estão agarrados a formas antigas de intervenção social. E nunca foi tão grande a distância entre eleitores e eleitos. Somos muitos os que não nos sentimos representados nas instituições democráticas actuais.Vivemos uma democracia formal, todos os dias um pouco mais seca, mais pobre e menos democrática.

É bom lembrar, neste momento, o que devemos àqueles com quem trabalhamos, com quem vivemos, aos mais novos, aos mais velhos e a nós próprios. Perder o sentido da humanidade levou sempre a terríveis tragédias históricas. Não o façamos nós.

Pobre/nobre povoacorda do teu sono, sacode as culpas com que te querem paralisar. A realidade cria-se e recria-se todos os dias. Nada está perdido.

A dívida consome uma parte cada vez maior dos nossos recursos e não pára de crescer. Porque, para pagar aos credores e fazer negócios ruinosos (BPN, por exemplo), se expolia quem sempre contribuiu para o Estado e agora se vê sacrificado e desprezado. Porque a verdadeira renda nacional vai para a área financeira privada. Porque o actual governo age contra o seu povo.