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A Crise e nós – Breve manual de sobrevivência

Estamos no início de mais um ano lectivo. Atrapalhado, confuso, com a escola pública empobrecida e muitos professores desempregados.

Entre incêndios e futebol, pouco se fala do que vivemos. Às vezes ouvimos um senhor chamado primeiro ministro que diz que estamos a sair da crise. Alguém deu por isso? Ou estão eles (governo, partidos da maioria e troika) a preparar mais empréstimos, mais cortes e mais pobreza para nós (não para eles, claro)? A IAC dá o seu contributo sob o lema «Pobreza não paga a dívida». Pense nisso. E lembre-se da Grécia, da Espanha, de Chipre e de muitos outros países que estão, sob o poder dos mesmos interesses financeiros e políticos, a viver as mesmas desgraças que nós.

Pensei então em elaborar uma «breve manual de sobrevivência contra a crise». Ou seja, que podemos nós fazer para não termos medo, para não andarmos tristes e amargurados, deprimidos e assustados?

Não tenho soluções mágicas mas, quanto a mim – e aceito que muitas pessoas discordem – tenho 6 respostas para continuar a viver uns dias mais felizes do que outros, claro, mas a começar cada dia bem disposta, a rir e a apreciar cada momento. Eis o meu «manual»:

1.   Não se isole. Não fique sozinho ou sozinha. Converse com os outros. Não se zangue. Aceite que há várias maneiras de pensar e de ver o mundo. Conversar, desabafar, saber ouvir, eis algo precioso e  importante, mais do que nunca.

2.   Se não percebe bem as causas desta crise, não vá atrás do que lhe dizem na TV – aquelas frases simples, cheias de culpa e de raiva que nos atribuem, a nós, as causas da dívida pública. Que não pára de crescer, por mais que nos sangrem e que o desemprego aumente (quantas contradições). E não se feche em casa com a TV. Procure informar-se, leia, pergunte, pense que estamos na Europa, num país que já foi muito pobre e analfabeto, um país de enormes desigualdades e que, qualquer que seja a nossa situação, todos temos direito a uma vida digna, «sem luxos nem lixos».

3.   Não culpe os vizinhos, os «outros», os mais pobres pelo que estamos a viver. «Eu sozinho não sou nada, juntos temos o mundo na mão», cantava-se há uns anos. E agora que o chão parece fugir debaixo dos pés, pense nesse refrão e cante-o.

4.   Numa das manifestações do último ano, com gente de todas as idades, o cartaz de que mais gostei era um espelho. Assim mesmo, um grande espelho que uma jovem levantava bem alto, para que todos víssemos que não estamos sós. E não estamos, somos muitos.

5.   Mesmo que pertença – como eu – aos mais velhos, conviva com os mais novos. No seu bairro, na sua vila ou cidade há actividades que pode frequentar ou desenvolver. Universidades, cursos, círculos, movimentos, o que for e que lhe agrade. Aprender faz bem. É o melhor preventivo contra a depressão. Não desista de viver. E de conviver.

6.   Não seja fatalista. Faça um esforço para compreender que o mundo mudou e que o passado, bom ou mau, não volta. Mas o presente e o futuro integram esse passado. Não deixe que lhe digam que «Não Há Alternativas». Há sempre, toda a vida, até ao modo como morremos. E o que é eterno é o que deixamos, o rasto do que vivemos e fizemos.

7.   E lute. À sua maneira. Como achar que pode e que quer. Lute por um mundo melhor. Sem pobreza, sem analfabetismo, com uma vida digna para todos. Sair à rua, falar, escrever, conversar, assinar uma petição, consultar o site da IAC, o que for. Participe. O MEDO acabou em 1974. E a habitação, a saúde e a educação são direitos de todos. Não deixe que o/a humilhem. Não acredite quando lhe dizem que «gastámos demais». Quem gastou? Com que fim? É a nossa casa que os aflige? A Educação que assegurámos aos mais novos?

É porque quisemos e queremos uma vida melhor para os nossos filhos? É porque sabemos que todos temos direito ao trabalho digno? É por termos tomado consciência que não podemos ser um país em que alguns (poucos) muito ricos mandam em muitos outros (muito pobres)?

É preciso lutar pelo país democrático que começámos a construir. Assim mesmo. Todos juntos.


Comentários

JD sou eu, José Dinis, que não sou caçador furtivo ou sniper, pelo contrário.
Peço desculpa pela óbvia involuntariedade.
JD

Ana Benaveente, volta e meia, inspirada por uma qualquer irrealidade, vem aumentar a opacidade que constrange. De facto, o que propõe é uma espécie de passagem ao lado do problema, e aconselha a não nos isolarmos e a desabafarmos,a pensarmos que estamos na Europa,a não culparmos os outros,a participarmos em manifestações com espelhos,a não desistirmos de viver e de conviver, a não sermos fatalistas, e que o eterno é o rasto do que vive(r)mos e fize(r)mos, para concluir que devemos lutar, cada um à sua maneira, e não deixarmos que nos humilhem. Imagino, que nos aconselha a procedermos como ela.
O problema é que nos falta a lucidez adquirida da experiência governativa, dos debates empolgados da Assembleia da República convenientemente subsidiados na despedida, experiências imprescindíveis para aumentarmos a confiança e o orgulho combativo à semelhança dos que contribuiram para termos chegado onde chegámos. Penso eu de que...
JD