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A crise e o mexilhão

Este texto de Manuel Esteves foi publicado noJornal de Negócios, no passado dia 7 de Junho. Transcrevemo-lo na íntegra pela sua acuidade e, também, por citar a IAC como uma das fontes.

 

As divergências entre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Comissão Europeia não são de agora. Desde o início que ficou claro que a organização internacional privilegiava os desequilíbrios económicos, ao passo que Bruxelas se centrava sobretudo nas contas públicas.

O relatório interno do FMI, vindo a público esta semana, vem coroar esta relação difícil, mas, vale a pena sublinhar, também confirma que, no essencial, ambos os credores de Portugal estão de acordo quanto às políticas que os países em dificuldades financeiras devem seguir. E, para desgraça dos portugueses, confirma a via da austeridade como a única via admissível. Doa a quem doer.

E enquanto os nossos credores discutiam e gregos, irlandeses e portugueses iam apertando o cinto, passava-se um outro fenómeno para o qual o relatório do FMI alerta. Deliberado ou não, o certo é que o empréstimo apressado ao Estado grego evitou que os grandes investidores privados ficassem com a batata quente da dívida pública nas mãos. E isto foi verdade tanto para a Grécia como para Portugal.

"Uma reestruturação à partida teria sido melhor para a Grécia, apesar disto não ser aceitável pelos parceiros do euro. Uma reestruturação atrasada também criou a janela para os credores privados reduzirem a sua exposição e mudarem a dívida para as mãos de credores oficiais (FMI, BCE e instrumentos europeus). Esta mudança ocorreu numa escala significativa e limitou um bail in (resgate envolvendo os detentores de títulos de dívida) quando se fez o PSI (Private Sector Involvement, a reestruturação grega que atingiu os investidores privados), deixando os contribuintes e os Estados com a responsabilidade de pagar", lê-se no relatório.

Segundo números citados pela Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Divida, "no fim de 2007, cerca de 70% da dívida pública portuguesa era detida por bancos e outros credores estrangeiros. Em meados de 2012, essa percentagem tinha descido para cerca de 20%" (um número que deverá ter subido entretanto com as novas emissões de obrigações e compras em mercado secundário).

Ou seja, a ajuda financeira que a Grécia e Portugal receberam não permitiu apenas aos Estados pagarem salários e pensões, conforme foi repetido à exaustão pelos respectivos governos. Evitou também que aqueles que foram responsáveis pela crise financeira do subprime, que, por sua vez, foi determinante na crise da dívida pública, não pagassem pelas asneiras cometidas. Lá diz o povo, quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão.