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A crise no meu bairro

Vivo num bairro antigo de Lisboa. Classe média, cafés, restaurantes, jornais, lojas, barbearias, vizinhanças que se conhecem e que conversam.

Nos últimos meses, o tema das conversas é a «crise». E que dizem os meus queridos vizinhos?

Que estão assustados, com medo, que gastámos demais, que, se calhar, a culpa é da democracia. Que fazem aqui os imigrantes? Que os políticos são todos iguais, que «isto ainda vai ser muito pior». Nunca viram «Inside Jobs» nem «Debtocracy» nem, dizem, percebem nada disto. Mas que isto está muito mal, está, até a farmácia tem menos clientes.

E que penso eu, perguntam. Pois digo-lhes que, pelo menos, quem sempre viveu pobre ou remediado (palavra antiga) não gastou demais, que não é por isso que andamos a pagar o BPN (isto do BPN todos percebem mas não sabem o que podem fazer contra tal «roubo»). E digo-lhes que temos que conhecer a dívida pública. O que devemos, a quem e porquê? E o que é legítimo pagar?

Digo-lhes que não é possível comparar a economia dum país, duma região ou do mundo com a economia doméstica, ao contrário do que pretendem os comentadores encartados. Em nossa casa, os pais não fazem agiotagem sobre os filhos, os filhos não escondem dinheiro dos pais, em nossas casas não há off-shores nem especulação duns sobre os outros.

E temos que saber porque é que há 3 ou 4 anos o discurso era muito diferente, os bancos cativavam os clientes e ainda agora, em plena crise, ganham mais de um milhão por dia, aqui, em Portugal. O que aconteceu desde 2008?

Eles também não viram o filme «Too big to fail» nem «Terapia de choque».

Encolhem os ombros e voltam ao seu mais ou menos silencioso desespero, à revolta que não sabem bem a quem dirigir e vão contando as inevitáveis anedotas que circulam sobre o apertar do cinto e as comparações entre nós e os gregos. Sentirem-se superiores aos gregos dá-lhes um certo consolo.

Os meus vizinhos têm razão em estar assustados.

A finança ganhou à política e os tempos que vivemos são de ameaça à democracia.

«Parece que houve um golpe de estado e não demos por ele», dizia-me esta manhã a minha amiga da caixa da pastelaria, que sei que se interessa por política.

Pois houve, respondi-lhe e é por isso que se torna urgente que os cidadãos exijam uma auditoria cidadã à dívida, tal como já aconteceu noutros países mas, claro, nos termos que marcam a nossa história e a nossa sociedade. Nos termos que a Constituição prevê, reconhecendo a cada cidadão o direito a saber como se governa e como é governado.

«Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar», cantava-se depois de Abril, nas belas palavras de Sophia. Pois não podemos.

Nem eu nem os meus vizinhos assustados queremos pagar sem saber a quem, porquê e para quê. Somos responsáveis pelo nosso presente e pelo nosso futuro. Isto, os meus vizinhos compreendem. E concordam.

 

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)

Comentários

Sinceramente considero muito nobres as tentaivas de lutar. Mas a verdade é que Portugal já foi extinto e ninguém tem coragem de dizer isso aos portugueses.. O melhor é fugir, que exige, neste caso, mais coragem do que ficar e não fazer nada ou lutar contra uma parede inderrubável, que é a mesma coisa no fundo. Esta parede é a soma de uma população ignorante que gosta desta situação e que é apenas as sobras de gentes com intenção, força e mais inteligentes que fugiram para países que lhes davam valor, e da maior organização criminosa que a humanidade já assistiu: o Estado Português!

Ainda há tempo para deixar a corja a alimentar-se de si própria. Quem se vai lixar são os últimos a sair de Portugal e garanto-vos que esses não serão, de certeza, os nossos senhores feudais.

No meu entender, a questão começa, quando o interesse público é subvertido pelo interesse particular.
As complexidades de diferentes investigações e julgamentos em curso, levam-nos a concluir que, quando viermos a sair desta crise, depressa nos afundaremos noutra, se não dotarmos a nossa democracia de instrumentos dissuasores.
Esta crise, para além das influências das crises com origem no exterior, também reflecte a rebaldaria lusitana, e tem muitas marcas de exclusividade. Assim, um instrumento fundamental de dissuasão, será um simples mecanismo popular de fiscalização sobre actos que atentem contra o interesse público. Claro, terá que ser consignado por lei, e, naturalmente, terá, pelo menos, duas virtudes: por um lado, vai incrementar o interesse popular pela coisa pública, desenvolver e consolidar as relações de vizinhança e solidariedade, e a participação nas decisões que respeitem ao colectivo; por outro, vai funcionar como elemento dissuasor da corrupção e dos atentados ao interesse público.
Por ter falado em investigações e julgamentos em curso, e sobre o arrastamento de certos processos judiciais, também não é possível permitir a continuidade do actual estado de coisas, e querer eficácia da justiça, que carece de profunda reforma. Já não bastava o cambão, os deslizes orçamentais, o markting e a publicidade, entre outras traquitanas para enriquecimento ílicito.
Paul Auster esteve no Estoril nos finais do ano passado, e interrogado sobre a relação dos políticos com a crise, surpreendeu sem peias: os políticos são criminosos! É que estava a esquecer-me de que a coisa não vai a lado nenhum, sem que se registem responsabilidades e responsabilizações.
Agora transmito uma eventual prenda para a IAC: o Plano Nacional de Acção para a Inclusão 2008/2010 revela muitos milhões orçamentados, em muita rúbricas de diferentes ministérios. Além disso, ele há planeamento de programas, viagens, apresentações, brochuras, publicidade, e, até, despesas com individuos carecidos. Seria curioso virmos a saber quanto daquelas verbas correspondeu a cada benificiário, e quanto foi dispendido com as restantes despesas de funcionamento.
José Dinis

ok...e como se processa isso?em teoria é td mt bonito mas e na prática?...td o que se construiu fez ou projectou neste país teve derrapagens orçamentais, desde o poder local até ao centarl passando pla malta do Rendimento Minimo garantido, até á malta do Rendimento máximo garantido,é tanta gente involvida (até tipos da cultura q recebem subsidios para realizarem porcarias incompreensíveis q obviamente n tem publico) td se aproveita dos dinheiros publicos, uns mais do q outros...q receio bem q dps de realizada a auditoria n va sobrar um unico portugues de fora desta trapalhada...além de que estes processos consomem recursos e dinheiro q começamos a n ter, se o sistema judicial funcionasse melhor n seria preciso nenhuma auditoria, sistema esse que vai inquinar a auditoria (feita por quem já agora?)

Ana Benavente

Tens toda a razão não podemos ignorar.É uma situação mundial complexa que exige ser tratada atendendo aos três níveis de complexidade: I Identificar; II Compreender; III Actuar.
Até este momento não tem sido identificada nem pelo Presidente da República nem por nenhum dos outros Orgãos de Soberania portugueses ou europeus, embora de uma forma lenta aqui e ali se diga que afinal o assunto não é só português nem resultou só de erros do anterior Governo.
Gostaria de falar contigo sobre a situação porque tenho já concluidos os níveis I e II e gostaria de te ouvir sobre o terceiro nível de complexidade porque és uma Senhora Política como se pode ver na apresentação da tua última obra que talvez não seja tão utópica como Portugal e o Futuro.
Com um beijo do
Luís Filipe