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Entre o caos e a reforma, o “perdão” é uma “meia culpa”

Perdão ou meia-culpa?

O primeiro-ministro e o presidente da República afirmam que estão contra um eventual” perdão da dívida” a Portugal, por extensão do que vai ser concedido à dívida grega, porque, enquanto houvesse memória, os mercados financeiros continuariam a desconfiar de Portugal e a não querer financiar a dívida portuguesa.

Discordo do conceito de perdão, que pressupõe, do outro lado uma entidade íntegra, perfeita e omnisciente, detentora da verdade e das virtudes em economia, isto é, os “mercados financeiros”. Ora, a dívida grega a 2 anos chegou a atingir um juro de 90%, e não me parece que haja na economia real nada que justifique este nível de juros, a não ser a mais desenfreada especulação.

O sofisma da confiança

Que estranha ilusão é essa, do governo e da oligarquia que monopoliza todos os poderes em Portugal_económico, financeiro, político, comunicação social_sobre a necessidade de ganhar a “confiança dos mercados”? Mas são eles fiáveis esses entes misteriosos e infinitamente poderosos e justos, únicos guardiões da verdade na economia e nas finanças? Quando hoje não há um único banco internacional que empreste capital a outro banco? Quando as acções desses bancos caem para valores residuais do seu valor nominal, sujeitas finalmente à mão de ferro do mercado que endeusaram e inflacionaram (veja-se as 60 sociedades financeiras que “o nosso” BCP criou nos paraísos fiscais com esse propósito e quanto valem hoje realmente as suas acções, inflacionadas por esse modo ilícito até 20 € e hoje reduzidas ao seu miserável e real valor de – de 20 cêntimos!)?

A “renegociação da dívida”, da Grécia à Irlanda e à Itália e…

A “renegociação da dívida”, pois é disso que se trata, para níveis, juros e prazos mais próximos do valor do capital na economia produtiva e não um falseador perdão que esconde o verdadeiro “pecado”, o da especulação financeira, é um processo comum no mundo dos negócios e um imperativo de reequilíbrio económico e financeiro da zona euro. Quem o diz é Pat Rabbitte, ministro da Irlanda para a Comunicação, Energia e Recursos Naturais, que perante a previsão da dívida soberana irlandesa chegar aos 250 mil milhões de euros até 2014, conduzindo à falência nacional, afirma que é "inevitável" para a União Europeia admitir alguma forma de “perdão da dívida para amenizar a crise irlandesa”.Antes dele, já as obrigações de dívida da zona euro “eurobonds” foram  reclamadas pelo  ministro italiano das Finanças, Guilio Tremonti, do governo de Berlusconi!

No início da crise financeira, os governos europeus gastaram uma fortuna para ajudar os seus bancos privados: o alemão, só em empréstimos e aumentos de capital o equivalente a 70% do PIB português_ Fonte: FMI; na Islândia, a falência dos bancos especuladores levou à sua nacionalização com custos equivalentes a ¼ do PIB, que os cidadãos, em sucessivos referendos, se recusam a pagar… E, em Portugal, a falência do BPN custou ao estado português vai para 5 mil milhões de euros ( também é preciso guardar esta memória!)

A dívida odiosa

Chegou a altura do sistema financeiro pagar os seus débitos e ser politicamente responsabilizado pela catástrofe económica e social que tem vindo a provocar. Sabemos hoje, na Europa como em Portugal, olhando para a evolução da dívida soberana portuguesa e das dívidas do estado às empresas e aos bancos, que a prosperidade da banca nacional e das grandes empresas se fez à custa dos negócios com o governo, sobretudo das grandes obras públicas. O estado gastador foi-o sobretudo em obras faraónicas e investimentos improdutivos, dos quais a construção de 10 estágios de futebol para o Euro 2004 é o mais vergonhoso emblema e vamos sabendo que o maior problema reside nas 83 Parcerias Público Privadas contratualizadas desde 1995 pelos governos PSD-CDS e PS com rendas a pagar pelo estado até 2050 de 49 mil milhões de euros. Vão ter que ser renegociadas.

As alternativas

Alguns líderes políticos socialistas, seguindo propostas elaboradas mais à esquerda, mas também pelos peritos das Nações Unidas, reclamam o fim dos paraísos fiscais, a criação de agências de rating certificadas e tuteladas pelas instituições democráticas internacionais e, ainda em privado, admitem substituir o dólar por uma moeda mundial de referência…E falamos de reformas. O caos ou a revolução exigirão outras medidas.

 

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)

Comentários

"BPN custou ao estado português vai para 5 milhões de euros" deve ter sido lapso de escrita, mas aparenta faltar ali a palvra "mil" algures entre o n.º "5" e a palavra "milhões". O resto dos números não fui pesquisar sequer. Cumprs.

Obrigado pela atenção. São pelo menos 5 mil milhões as percas do estado com o BPN; quanto aos outros números, se pecarem, é por defeito!