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Entrevista a Nick Dearden

Nick Dearden é inglês,  dirige Jubilee Debt Campaign (organização do Reino Unido que intervém, a nível nacional e internacional,  na  luta global contra a escravatura de divida e pela justiça da dívida) e é um dos convidados internacionais no Encontro Nacional da IAC, que terá lugar no próximo dia 19 de Janeiro.

Os responsáveis pela organização do Encontro enviaram-lhe três perguntas que aqui se divulgam, juntamente com as respostas entretanto recebidas.

 

1) Acredita que a dívida externa deve ser «paga a todo o custo»?

Essa visão perniciosa já foi contestada, com bastante sucesso, naquilo que denominámos como «movimento da dívida do Terceiro Mundo«». Na altura, muitas pessoas aceitavam o preceito de que «as dívidas devem ser sempre pagas» — mesmo se a dívida em questão tivesse sido contraída por um ditador há muito deposto, a quem o dinheiro fora emprestado para comprar ao Ocidente as armas utilizadas para oprimir as mesmas pessoas a quem agora se exigia o pagamento. E mesmo se o pagamento dessas dívidas implicasse a disseminação de doenças, desemprego e até a morte de milhares de pessoas, ao passo que o não-pagamento não levaria à morte de absolutamente ninguém. Dá para ver até que ponto a questão da moralidade da dívida está enraizada nas nossas sociedades.

Mas esta moralidade foi posta em causa, e muita, muita gente — provavelmente a maioria das pessoas — acabou por aceitar que nem sempre é correcto pagar uma dívida. Existe inclusivamente o princípio da dívida odiosa — dívidas contraídas por ditadores, com efeitos nocivos sobre um povo —, que não deve ser paga de todo. Mas tudo isto implica muita pedagogia junto das pessoas, e muitas campanhas para mudar a opinião do senso comum sobre este assunto. Hoje em dia, temos de levantar a questão do que será uma dívida ilegítima aqui na Europa. Quando os «credores-abutre» obtêm lucros imensos à custa da miséria das pessoas, emprestando-lhes dinheiro a taxas de juro com percentagens que chegam aos milhares, pura e simplesmente para que possam comprar roupas e comida, podemos realmente afirmar que estas dívidas ilegítimas devem ser pagas? Questionar o «sistema» da dívida é a nossa tarefa mais importante, enquanto activistas, se queremos mudar as sociedades em que vivemos.

 

2) Acredita que é possível vencer a crise económica e social por via da austeridade?

É completamente impossível. Este ciclo de dívida e austeridade tem sido imposto a vários países, mais do que uma vez, a partir de finais da década de 70. O resultado foi sempre mais pobreza, mais desigualdades, menos democracia e mais poder para as empresas multinacionais. Mais ainda, criou sempre mais dívida, porque um país mais pobre tem ainda menos condições para pagar a dívida. Então, porque continuam a impor estas políticas? Porque há algumas pessoas que lucram com elas. A austeridade funciona de facto — para o 1% mais rico da população mundial, que enriqueceu para além do imaginável nos últimos 30 anos. No fundo, estas políticas criaram uma economia global, que deu às multinacionais e aos super ricos imenso poder, condenando a maioria das pessoas à pobreza. O que se está a passar na Europa hoje em dia não é novo, e temos de aprender com as campanhas contra a dívida na América Latina, na Ásia e em África.

 

3. Acredita que a pior fase da crise europeia já passou?

Nem queria acreditar, quando ouvi Durão Barroso a afirmá-lo há pouco tempo. É a prova (se é que precisávamos de mais alguma) de que as autoridades da troika vivem num universo paralelo. Claro que crise ainda não acabou, e o pior ainda está para vir. Na Grécia, a saúde pública foi destruída, e os índices de suicídio, assassínio, prostituição e HIV crescem vertiginosamente. Há partes de Atenas sob o controlo de grupos nazis. E este cenário horror não se ficará pelas fronteiras da Grécia. Há toda uma geração que não vê um futuro à frente.

É por isso que temos de organizar-nos contra a dívida, e a favor de auditorias. É a única forma de as pessoas reconquistarem o controlo sobre a economia. Não podemos dizer que vivemos em «democracia» se não tivermos controlo sobre a economia, porque é nesse campo que são tomadas todas as decisões que afectam as nossas vidas. As lutas contra este modelo económico desumano conseguiram vencer em vários contextos — olhemos para a América Latina, por exemplo, onde estão a ser feitas experiências em torno de novas formas de comércio, novos bancos de desenvolvimento, orçamentos participativos, etc. É possível retomar as rédeas da economia — não vai acontecer de um dia para o outro, mas temos de começar por algum lado.

 

(Tradução de Mariana Avelãs)