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As Fúrias — Acto III

 

Acabam de chegar. Instalam-se no quartel-general do austeritarismo, algures entre o gabinete de Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira. Com as suas ferramentas estatísticas, medem o futuro de Portugal e, inevitavelmente, o futuro da zona euro (porque a tese do pecado original helénico cairá por terra quando todos perceberem que o problema é sistémico). Em certo sentido, a chamada troika — a comissão conjunta do FMI, representado por Poul Thomsen, do Banco Central Europeu, representado por Rasmus Rüffer, e o híbrido (ou a hidra) Comissão Europeia-Fundo Europeu de Estabilização Financeira, representado por Jürgen Kröger — é uma versão empobrecida das Erínias, ou Fúrias, que Ésquilo eternizou na Oresteia e Dante versou no Canto IX da Dívina Comédia. Entidades vingadoras do matricídio e parricídio, são incansáveis e amaldiçoadas. Alecto é a fúria implacável; Megera é o ódio e o rancor; Tisífone é a punição dos parricidas. As analogias possíveis são vastas. Os gregos, portugueses e irlandeses parricidas do consenso neoliberal serão punidos pela “desvalorização interna”. A chegada das Fúrias neoliberais, para a avaliação periódica acordada nos termos do Memorando de Entendimento, confirmará o carácter insustentável do programa de engenharia austeritária imposto a Portugal e a incompetência dos técnicos (oráculos?) que, em Washington, Frankfurt, Bruxelas e Lisboa, quiseram escrever a sua própria tragédia tecnocrática. Nada disto será tido como relevante: a prestidigitação estatística com que esta tríade admite a sua própria incompetência sem ser responsabilizada está documentada — basta verificar as actualizações ao programa grego e ler a documentação do FMI. Com efeito, a chegada destas reproduções paupérrimas da mitologia helénica a Lisboa terá o efeito talismânico de retirar qualquer impressão técnica à intervenção cirúrgica que catroguiza Portugal a grande velocidade: é um programa estritamente político e Thomsen, Kröger e Rüffer cumprirão apenas a estrita função teatral — respeitando as regras da dramaturgia neoliberal — de reiterar a necessidade e suficiência do pastel de nata como bem transaccionável. Passarão por cima da recessão mais profunda que o previsto, do desemprego real muito superior aos 13% e da inexistência de um sector produtivo que promova a inovação (e não repita os Belmiros, os Alexandres e Ricardos que sangram a economia portuguesa há 290 anos). Um coro, em suma. Imbuído do fervor fanático de Chicago e da economia neoclássica.

Com a publicação do primeiro Relatório do Mecanismo de Alerta, torna-se evidente que Portugal, tal como os outros “países-programa”, Grécia e Irlanda, será alvo de vigilância e ajustamento contínuos, acelerando a transferência de riqueza para a classe capitalista e a desvalorização do trabalho. Entretanto, a reestruturação é cada vez mais inevitável. A posição alemã, segundo Yannis Varoufakis, passou a ir beber aos tratados cirúrgicos medievais: trepanar a União Europeia até a pressão diminuir e, se necessário, amputar membros. Grécia e Portugal serão os primeiros. As Fúrias neoliberais, no escuro dos seus computadores portáteis e dos seus gabinetes emprestados (sem fotografias de família, mas com pastéis de nata a acompanhar a água Evian), não no-lo dirão, porque a húbris neoliberal está demasiado imbricada nas instituições financeiras internacionais e na arquitectura comunitária. Não fora essa uma frase demasiado lúgubre, dir-se-ia que estamos diante de uma tragédia que vai no terceiro acto. O problema é que, ali para o Egeu, onde o austeritarismo apenas deixa escapar a farsa (que inclui um partido neonazi com 3% de intenções de voto) e a estupidez (o rácio dívida pública/PIB aumentou, em vez de diminuir, e os depósitos em instituições de crédito estão a sofrer uma diminuição exponencial, de acordo com o Banco Nacional Grego), estamos a ver o que sucederá. Porque somos gregos, uma plêiade de helénicas e helénicos adoptivos, que recebem as Fúrias com pastéis de nata. E é isso que precisamos de mudar. Para que estas fantochadas de gente odiosa e ignorante, que chega, de nariz empinado e imperial, com bolas de cristal e iPhones, acabem. E possamos voltar a apreciar o valor da cultura clássica sem ter de lhe atribuir um preço ou justificar a sua função no mercado de trabalho. As Fúrias chegaram. Resta saber se a nossa fúria também está por aí.

 

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)