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Líder da Oposição Grega Apela a Uma Conferência Europeia sobre a Dívida

Helena Smith | The Guardian | 9 de Dezembro de 2012

Alex Tsipras, dirigente do Syriza, afirma que a única solução viável para a crise da dívida é um «haircut[1] para a Grécia e toda a periferia sul».

Passadas poucas semanas do anúncio do terceiro (em três anos) plano da UE e do FMI para salvar a Grécia da bancarrota, o partido mais popular do país (que representa a oposição radical de esquerda) apelou à realização de uma conferência europeia sobre a dívida. O objectivo é encontrar «finalmente» uma solução para a crise, que, para o Syriza, está longe de estar a ser resolvida.

Numa entrevista em exclusivo, Alexis Tsipras, cujo partido se opõe frontalmente à austeridade, insistiu que, perante a expansão do drama da dívida, os credores estrangeiros não têm outro remédio senão consultar os livros de história, de modo a lidar com a periferia sul, arrasada pela crise, com os mesmos mecanismos utilizados para com a Alemanha no rescaldo da Segunda Guerra Mundial.

«É absolutamente claro que o último acordo não passa de um compromisso que vai limitar-se a perpetuar a incerteza… A Merkel tem de dizer ao seu eleitorado antes das eleições [alemãs de 2013] que o programa não está a funcionar», disse Tsipras ao Guardian.

«A única solução viável é um haircut, não apenas para a Grécia, mas para toda a periferia sul», acrescentou, enfatizando que, quanto mais os credores adiarem anular uma porção substancial da dívida colossal de Atenas, maior será o preço social e económico a pagar.

«É por isso que propomos uma conferência nos mesmos moldes da realizada em Londres em 1953, que aliviou a Alemanha de cerca de 60 por cento da sua dívida. Queremos chegar a um acordo com os nossos credores para uma solução credível. Não importa o local, mas deve acontecer o mais rapidamente possível.»

Como era um dos Aliados, a Grécia, ironicamente, participou na conferência de 53, cujo acordo relativamente à dívida viria, mais tarde, a lançar os alicerces do milagre económico alemão do pós-guerra. O pacto permitiu ao país destruído de Hitler estender o pagamento ao longo de um período de trinta anos, e estipulou ainda que o cumprimento das obrigações financeiras ficaria dependente do desempenho económico.

Para que a economia destroçada da Grécia venha alguma vez a recuperar, é crucial, na opinião de Tsipras, que o país beneficie igualmente de uma «cláusula de crescimento», que vincule também o reembolso da dívida à capacidade para pagá-la. «O que pedimos é tempo, uma moratória ao serviço da dívida para podermos aplicar esse dinheiro em políticas de crescimento», disse, acrescentando que a suspensão do pagamento dos juros, que se prevê que atinjam a quantia de cerca de treze mil milhões de euros por ano, seria o primeiro passo para relançar a moribunda economia grega. «Seria uma solução vantajosa para todos».

O carismático dirigente, que saltou para a ribalta quando o seu partido aumentou cinco vezes o número de votos nas últimas eleições, defendeu ainda que a estratégia gradual dos credores para resolver a crise levará à destruição não apenas da Grécia, mas de todo o continente.

«O problema económico da Europa assenta em dois pilares. O primeiro é a dívida, que tem de se tornar viável, e o segundo é a austeridade, que tem de acabar. Se continuarmos com este tipo de medidas, é como apagar o fogo com gasolina», afirmou.

As políticas económicas de Tsipras têm sido repetidamente ridicularizadas pelo primeiro-ministro Antonis Samaras, que as apelida de «perigosas e fantasiosas». Mas a realidade tem dado razão ao esquerdista de 38 anos: a via da austeridade na Grécia, em nome de um ajustamento fiscal brutal, criou níveis sem precedentes de pobreza e desemprego, afundou a economia numa recessão, e tem-se traduzido em objectivos orçamentais repetidamente falhados, que arrastam o país para uma espiral de morte cada vez mais profunda. E criou poços sem fundo no sul da Europa, que os contribuintes do norte foram depois chamados a financiar.

Embora o último resgate inclua um complexo esquema de recompra de títulos, que irá aliviar em cerca de 30 mil milhões de euros a dívida de 340,6 mil milhões do país, tal não passa, segundo Tsipras, de uma maneira de os credores «comprarem tempo», e está, por isso, longe de ser uma solução adequada.

«Quando a crise começou, em 2009, a nossa dívida correspondia a 120 por cento do PIB. Este ano, as projecções oficiais indicam que vai ser de 175,6 por cento. E agora vêm dizer-nos [a UE e o FMI] que, para tornar a dívida sustentável, temos de atingir 124 por cento do PIB em 2020», diz, acenando a cabeça, incrédulo.

«Vamos supor que até podem ter razão — mas como é que querem que cheguemos lá? Após doze anos de austeridade e medidas catastróficas, com cortes no valor de dezanove mil milhões de euros, a Grécia será uma terra de ninguém.»

 

Tradução de Mariana Avelãs

Revisão de Helena Romão

 

Ler original aqui:

http://m.guardian.co.uk/world/2012/dec/09/greek-opposition-european-debt-conference

 


[1]
O «haircut», que numa tradução literal corresponde a «corte de cabelo», traduz a perda que um investidor está na iminência de suportar num determinado activo. A dimensão do «haircut» reflecte a percepção de risco associada ao activo. Por exemplo, o «haircut» que foi negociado com os bancos e entidades financeiras privadas que compraram títulos de dívida da Grécia foi de 50%. O objectivo é criar melhores condições para que o remanescente da dívida possa ser efectivamente ressarcido.

Fonte:  http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/glossaacuterio_o_dicionaacuterio_da_crise_da_diacutevida_na_zona_euro.html