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As lições islandesas

Apenas em cinco anos, desde a sua privatização (em 2003) até ao seu colapso em 2008, a banca islandesa aproveitou a desregulamentação do sector financeiro para abandonar o seu papel tradicional – receber depósitos e conceder empréstimos a empresas locais –, dedicando-se à muito mais lucrativa actividade da banca de investimentos, financiada por mercados muito líquidos e investidores aliciados por boas taxas pagas por bancos seguros, a acreditar nos seus ratings.

Como tantas vezes no passado, ninguém parou para se perguntar qual era o limite: os bancos geravam taxas de rentabilidade do seu capital, que chegaram a atingir 50 cêntimos por euro investido, as acções dos bancos rendiam 100% ao ano e os empréstimos e depósitos que os bancos recolhiam no exterior do país pagavam taxas imbatíveis.

 

Gráfico 1 – Valor das acções em final de ano  (2003=100) (1)

E, como tantas outras vezes, ninguém se perguntou se era comportável ter bancos com esta dimensão num país de 320.000 habitantes. Ninguém notou (ou quis notar) que estes três bancos tinham balanços agregados nove vezes maiores que o PIB Islandês ou que esse balanço, per capita, era sete vezes maior que o que  temos em Portugal.

 

Gráfico 2 - Evolução dos empréstimos dos 3 grandes bancos islandeses (2)

Quando, na sequência da falência da Lehman Brothers, o mercado de empréstimos entre bancos deixou de existir a nível mundial, o monstro deixou de ter a liquidez com que disfarçou a sua debilidade.  Ao contrário dos outros governos, a Islândia não tinha condições para resgatar este gigante e fez apenas o que pôde: criou novas entidades para onde transferiu os depósitos dos clientes domésticos, salvaguardando-os, e deixou para os investidores internacionais as perdas desta actividade especulativa que, em alguns casos, foram quase totais.

Este princípio de distinguir os credores entre depositantes e investidores profissionais (que sabem ou têm a obrigação de saber que há uma correlação positiva entre a rentabilidade e o risco), permitiu deixar fora da esfera pública – do bolso dos contribuintes islandeses – muitos milhares de milhões de euros que, muito simplesmente, não poderiam ser pagos.

Esta foi uma lição que não aprendemos. A dimensão relativa do nosso problema bancário não é tão grande como a da Islândia. Mas a da dívida pública é. Sobrecarregá-la, nacionalizando prejuízos da actividade financeira, é ilegítimo e incomportável. Foi o que fizemos com o BPN. É o que está em risco com outros bancos socorridos.

Esta semana, tivemos mais uma lição islandesa. A história está tão bem contada aqui, que é dispensável detalhá-la. Resumindo, o tribunal da EFTA veio dar razão aos cidadãos islandeses quando votaram massivamente contra um plano que lhes impunha uma dívida incomportável e ilegítima. Uma dívida imposta de fora, sobre dinheiro que não receberam e com um plano de pagamentos que não poderiam cumprir.

É bom que não se esconda que a dívida não paga pelos islandeses já o foi por outros povos – o holandês e o inglês. Mas a lição que a notícia desta semana ensina é global: a de que a soberania reside no cidadão, não nas administrações de bancos ou nos conselhos de ministros.

Esta lição é a dívida que temos para com os islandeses e, já agora, para com o presidente da sua República, que a soube aplicar no tempo certo e contra a lógica, dominante, da inevitabilidade. Não deixemos de a pagar. 

 

(1) A partir dos R&C dos bancos. Valores convertidos para Euros e ajustados ao dividendo, excepto para o Kaupthing. 

(2) Fonte: Relatório da Comissão de Investigação Especial do Parlamento islandês. Valores em milhares de milhões de Euros, referentes às carteiras geridas pelas entidades islandesas i.e., excluindo as subsidiárias no exterior do país.