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A mãe de todas as crises e as auditorias cidadãs

A crise iniciada em 2007 pode bem ser chamada a «mãe» de todas as crises. O bailout dos bancos americanos em 2008-2009, que inicialmente a Reserva Federal estimou em 700 a 800 mil milhões de dólares rapidamente iniciou uma escalada para a frente, chegando segundo a Bloomberg ao final de 2009 com um custo de 7,77 biliões de dólares (7.770.000.000.000). No final de 2011, o Levy Economics Institute estimava o total de capitais públicos gastos com o resgate da banca e das instituições financeiras em 29,616 biliões de dólares (29.616.000.000.000). É difícil imaginar a dimensão do que significam todos estes zeros, mas é de referir que o PIB dos EUA é de 15,8 biliões de dólares, pelo que o resgate do sistema financeiro dos EUA custou 187% de toda a riqueza produzida nesse país no ano de 2012. Sendo a economia dos EUA equivalente a 24,35% do PIB mundial, o resgate do seu sistema financeiro dos EUA custou 45,64% de toda a riqueza produzida no mundo em 2012. Talvez seja ainda assim difícil percebermos a magnitude destes resgates. E importa por isso também deixarmos de pensar na crise que começou em 2007 como uma crise, e passarmos a considerá-la «a crise», a mãe de todas as crises. E, como tal, compará-la historicamente com outros grandes fenómenos economicamente depressivos e fruto de gastos massivos é um exercício adequado para tal. A História dos EUA está plena de períodos deste tipo, que talvez permitam exercer um paralelo adequado para o impacto histórico do que hoje vivemos:

         (fonte: Bianco Research, L.L.C)

 

O resgate da banca dos EUA custou quase quatro vezes a soma dos principais eventos da História deste país. Não pode haver enganos sobre o período em que vivemos. A banca e o sistema financeiro conseguiram manipular todos os recursos da sociedade para a sua própria manutenção. As redes que estenderam, desde a administração pública à comunicação social, permitiram fazer uma inversão total da realidade e transformar uma crise banqueira numa crise das dívidas soberanas. Os resgates multimilionários (na Europa, segundo a Comissão Europeia, as garantias dadas pelos Estados ao sector financeiro, excluindo os empréstimos do BCE, chegaram aos 5,086 biliões de euros, o equivalente a 40,3% do PIB da União Europeia) foram atirados para cima das populações e exige-se a destruição dos Estados através da adopção da austeridade sem fim, imposta pelos novos tratados europeus. Os «resgates» já queimam e por isso desenham-se novas formas de intervenção externa, sem o molde actual, em que a troika já pode emprestar apenas à banca, sem memorando oficial, mas com as mesmas contrapartidas políticas a nível dos governos. As alusões às dívidas e aos défices vão-se reduzindo porque o principal objectivo vai-se sempre impondo: ajustamento estrutural, reformulação do papel dos estados, abdicação da soberania. A resposta ao roubo da democracia e à decisão sem escrutínio, na base da imposição desta «nova ordem», deve ser a resposta democrática. Se a democracia não destruir a austeridade, a austeridade destruirá a democracia. E, para dar força a essa democracia, são necessárias ferramentas precisas e apontadas, que iluminem as opacas operações de lavagem de dinheiro e principalmente de mentes. O estudo e a auditoria à dívida pública permitiram-nos chegar a conclusões como a anterior: perante as evidências de endividamento injustificado, imoral, e até por vezes ilegal, o Estado mandatado não toma providências, não inquire, não insurge, não renegoceia, mesmo quando o mandato é expresso. Porque não é esse o seu mandato. O seu mandato, ditado pela troika, é endividar, é clientificar uma pequena franja da população, e extorquir o restante. Hoje, no sopé da mãe de todas as crises, importa olhar com clareza para o panorama à nossa frente: as dívidas públicas são dívidas privadas, pagámos uma vez a crise da banca e da finança, e pagá-la-emos tantas quantas forem necessárias, enquanto não for claro na sociedade a realidade de que só houve uma crise, de que com a austeridade estamos a pagar resgates e recapitalização das instituições financeiras, de que o papel dos estados é servir as suas populações, e não a sua banca e a banca internacional. Hoje, a auditoria deve tornar claro que, na dívida, como na crise e na sociedade, há um nós e um eles. A democracia contra a austeridade. Há lados e é preciso escolher.