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A nossa última carta

Os CTT foram privatizados. Ao escrevermos esta pequena frase contraem-se dolorosas emoções.

Durante cerca de 500 anos construímos, nós cidadãos, uma empresa. Levamos o Estado a todas as casas do país. Não há nenhum canto fora do alcance dos CTT. Ao longo dos caminhos percorridos pela empresa cresceu o Estado, desenvolveram-se os serviços públicos e dinamizou-se a economia.

Criou-se emprego. Os CTT são e sempre foram um dos maiores empregadores nacionais.

Gerámos riqueza para o país. Do telégrafo ao telefone, as principais inovações tecnológicas chegaram a Portugal pelo ‘correio’. Garantimos a possibilidade a todos os cidadãos de comunicarem de forma livre e acessível. Enviar uma carta ou telefonar a partir de Lisboa para Bragança custa o mesmo para Sintra. Aproximámos os cidadãos. Todos mais próximos de quem gostámos.

Continuámos a libertar valor para a sociedade. Desde 2005 os CTT garantiram 438,7 milhões de euros de lucros. Todos os anos os CTT registam lucros, dinheiro que financia o Orçamento do Estado, a Segurança Social, a Educação e a Saúde.

Participámos num processo mundial. Contam-se pelos dedos das mãos os países em todo o Mundo que venderam os CTT a privados. Alguns até se arrependeram: da Suécia à Dinamarca, passando pela Argentina, encontrámos casos de renacionalizações da empresa após gestões danosas dos privados. Nem os EUA vendem a sua empresa pública de correios. «É uma má ideia», garante Obama.

Os CTT são a empresa de todos os cidadãos. Nasceu no nosso seio, foi moldado pelas nossas mãos, alimentada com o nosso trabalho e gerida pelos interesses do povo. Com a nossa força resistimos às tentativas para nos tirarem os CTT.

Sabemos que vão fechar as estações por nós erguidas. Eliminar os postos de trabalho que criámos. Reduzir os serviços que expandimos. Encaixar o valor que garantimos.

Entregam os CTT a empresas privadas, que ficarão a controlar mais de 50% do capital. Tiram o que é nosso, o que criamos. Contra a nossa vontade, contra greves, contra protestos e manifestações. Contra todos.

Hoje é um dia triste. Acordámos mais pobres. Não tarda, dir-nos-ão que não queremos trabalhar, que gastámos mais do que aquilo que produzimos e que não há dinheiro para a nossa saúde, para a nossa escola e para as nossas pensões.

Está na hora de recuperarmos a nossa empresa. Hoje também é dia de prepararmos a nacionalização dos CTT.