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Novos Bárbaros

Os novos bárbaros são todos os que a troika representa. Trazem como armas o MEDO e a MENTIRA. “Batendo as asas pela noite calada vêm em bandos com pés de veludo” (não é, Zeca Afonso?). Foi assim que chegaram, nós embalados por uma democracia cada vez mais seca e mais estreita, descontentes, mas enfim, crises já vimos algumas e coragem não nos falta. Ou falta? Convivemos com a corrupção, não exigimos explicações de muitas decisões que nos escapavam. Os exemplos são muitos – da  Parque Escolar  ao BPN e às Parcerias Público Privadas. Vimos lugares e lugares escandalosamente pagos (por nós) a trocarem de mãos, sempre entre os mesmos, quase desistimos de ouvir os discursos dos “políticos”, de vocabulário reduzido e palavras falsas e formais. Palavras que nós sentimos que eles não sentem.

Os novos bárbaros fazem do medo a sua arma e a nossa culpa.

Culpa de termos acreditado, culpa por termos obedecido, culpa por lhes batermos palmas, culpa porque os levámos a sério. Culpa por termos aceitado as propostas que nos fizeram. Culpa por não termos participado criticamente.

E o nosso medo é a força deles. Medo do desemprego, da velhice, da solidão, de não termos médicos, de morrermos sozinhos, das reformas que vão mingando, de perder a casa que tanto custou a pagar. Medo da pobreza.

E dizem-nos que assim é que está bem, calados, calados, submissos e sem queixas. Quanto mais calados nós estivermos, mais perto estaremos das soluções de futuros melhores. 

MENTIRA. Quanto mais pagamos, mais devemos, quanto mais sofremos em silêncio, mais direitos individuais e colectivos vão desaparecendo.

Atrás dos novos bárbaros vêm os barbarozotes. Compram ouro sem pagar juros (um escândalo), abrigam os capitais fora de portas, trocam dinheiro em moedas de outros lugares (libras, dólares americanos e canadianos). E não há justiça.

Condenam-nos para se salvarem, mas enganam-se. Vivemos no mesmo mundo. E o desespero dos pobres pode ser a morte dos mais ricos.

Somos gregos, pois claro. Para que se construiu a Europa, senão para sermos solidários e mais fortes?

Como mensagem educativa não está mal: atira um vizinho no chão, pisa-o, tira-lhe o pouco que tem e dá-lhe depois uma esmola. Com juros altos. E ele que te agradeça, porque podias não ter dado.

Voltámos aos anos 50, às cantinas para pobres, à fome nas escolas.

Democracia? É nossa. E a única salvação é não termos MEDO e não acreditarmos nas mentiras. Para não termos medo, temos que estar unidos e solidários. Para desfazermos as mentiras, temos que exigir TODA a informação. Para isso se criou a Associação Artº 37 e a Iniciativa por Uma Auditoria Cidadã. Consultem o site: auditoriacidada.info. Perguntem. As perguntas sinceras são sempre pertinentes, as respostas é que podem não o ser. Os brutais impostos directos e indirectos que pagamos, do IRS ao IVA, não servem para pagar o Serviço Nacional de Saúde, os transportes públicos e a educação para todos?

Se ficarmos quietos, sugam-nos o sangue. Se exigirmos respostas e fizermos da democracia e da dignidade uma causa de todos, temos um imenso poder. E TEMOS.

 

Artigo publicado no Público de 2012-03-02

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)