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O direito ao futuro / o dever de o preservar

O mundo tornou-se num lugar frágil. Ameaçado por uma catástrofe ecológica que compromete a nossa sobrevivência. Abalado por uma crise global do sistema financeiro que desafia os fundamentos da democracia.

São realidades aparentemente distintas, porém ambas expressões da falência, da obsolência e da irracionalidade deste modelo de organização económico e social, durante décadas imposto como único.

Um sistema que se revelou gerador de falso progresso, apostado exclusivamente na obtenção de lucro a qualquer preço, assente no consumismo exacerbado e na exploração irracional de seres humanos e Natureza.

A herança é demolidora: o aumento brutal de desigualdades sociais, a exclusão, a pobreza e o desemprego, a par da acelerada destruição de florestas e solos, perda da biodiversidade, poluição, esgotamento de recursos fósseis, crise energética, escassez de bens essenciais como a água e mudanças climáticas.

É neste contexto negro que emerge a crise global no sistema financeiro e económico, primeiro nos EUA e depois na Europa, culminando agora na crise das dívidas soberanas. Uma crise que está a transformar o projecto europeu num perigoso monte de escombros, colocando a nu toda a sua vulnerabilidade.

Uma crise que revelou que a solidariedade europeia é uma ficção e o poder politico irrelevante, refém que está do poder especulativo dos mercados e dos seus beneficiários directos. É a crise que está a fazer do Planeta e do seu património – também civilizacional – espécies ameaçadas.

Neste quadro, Portugal está a viver uma fase dramática. A amplitude da crise, a dimensão da dívida, a brutal dependência externa e a estagnação económica, conjugadas com a especulação dos mercados e políticas erradas conduziram a um pedido de ajuda internacional e a aceitação incondicional da tutela externa.

Os termos dessa intervenção e a ausência de uma verdadeira resposta europeia à crise, aliados ao fundamentalismo ideológico do actual governo, estão a transformar o nosso país num laboratório e os portugueses em cobaias de receitas académicas caducas que, acenando a bandeira do «empobrecimento» debaixo de uma narrativa falsa, atentam contra as mais básicas condições de vida.

Cada dia são adoptadas novas medidas que irão acelerar os níveis de injustiça, conduzindo à pobreza e acentuando o ciclo de declínio económico. Pela sua irracionalidade e desproporção, conduzirão, em suma, ao desmoronamento a prazo da própria democracia, estendida como a liberdade e as condições para o seu pleno exercício.

É impossível aceitar este fatalismo imposto e assistir à ruína do país sem questionar a essência deste absurdo plano sem retorno, sem nos interrogarmos sobre os seus procedimentos e sem perspectivar novas vias sustentáveis de desenvolvimento que nos permitam enfrentar os novos desafios globais.

O tempo que vivemos confere-nos o direito de conhecer, de facto, a situação e avaliar criticamente os erros passados. Confere-nos, acima de tudo, o dever de participar, enquanto cidadãos responsáveis e conscientes, na busca de caminhos que, diferentemente, nos permitam moldar um desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente equilibrado.

Não é só o presente que está em jogo. São os laços de solidariedade para com as gerações vindouras que não podem ser quebrados.

 

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)