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Os neo-indignados

Com a mesma cara de pau com que defenderam a desregulação e a privatização durante décadas, as PPP, a insustentabilidade do Estado Social, o Tratado de Maastricht, o Euro, o Tratado de Lisboa (porreiro pá!), a intervenção do FMI e a inevitabilidade da austeridade, a maioria das cabeças falantes da TV, de Pacheco Pereira a Medina Carreira, passando pelos notórios Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa e Manuela Ferreira Leite, vêm agora indignar-se com os efeitos do veneno que eles próprios inocularam no país. Até já Passos Coelho  e  Vítor Gaspar assumem a oposição a si próprios quando o primeiro confessa que não gosta de pagar impostos e o segundo elogia quem protesta.

A neo-indignação é um fenómeno novo e nunca visto entre nós. É a verbalização da raiva de uma base social de apoio que se revolta contra as consequências das políticas que apoiou. É a tentativa de contenção dessa raiva pela via da canalização para projetos políticos de contornos indefinidos. A neo-indignação é uma genuína perplexidade perante um governo de gestão de uma potência externa de ocupação que não poupa os seus. É uma dissonância cognitiva perante um estado de coisas inesperado. Afinal estava combinado que quem pagava eram os benificiários do Rendimento Social de Inserção, os desempregados, os precários, os assalariados mal remunerados, quando muito os funcionários públicos, os professores. Taxar-nos a nós também? Isso é inadmissível. O que estava combinado é que os outros sofriam e nós ficávamos bem para podermos mostrar os nossos bons sentimentos de forma voluntária, caritativa. Quem vai agora ajudar? Quem vai ter a bondade de criar emprego? Quem se vai esforçar e empreender se o «mérito» deixa de ser premiado com privilégios exorbitantes?

A neo-indignação é o caldo de cultura de coisas que se podem tornar muito feias. É a demonstração prática de que a obstinação em servir os credores acima de tudo e de todos pode não só destruir economicamente um país, como já sabíamos, mas pode comprometer os fundamentos essenciais da vida política democrática. Quando as elites políticas fazem em público ridículas acrobacias, passando da defesa de uma política à crítica indignada dessa mesma política enquanto o Diabo esfrega um olho, para regressar à defesa da mesma na primeira oportunidade, o risco de os espectadores confundirem elites com regime democrático é muito grande. Perante a neo-indignação, o Diabo é quem esfrega as mãos de contente.