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A Propósito da «explosão» da Dívida Pública

Por mim tenho a tendência para ver estas coisas em termos de «lógica intrínseca do sistema». Será assim como raciocinar sobre os jogos de cartas (computorizados ou não): há um certo número de premissas, assume-se uma série de regras, começa-se o jogo e logo se vê onde a coisa vai dar. Só que, na vida real, não há como «baralhar e dar de novo»... O tempo não volta para trás.

No mundo da finança globalizada qualquer cidadão pode mandar transferir com regularidade centenas ou milhares de euros por ano para apoio a familiares no estrangeiro. Se em vez dessas algumas centenas ou milhares forem antes muitos milhões, o procedimento é essencialmente o mesmo e nenhuma autoridade se pode opor a essa saída de capitais... Em todo o caso, eventuais tentativas de controle dessa saída de capitais são sempre contornáveis por via de alguma comissão extra a pagar a quem facilite o processo.

Ora bem, de cada vez que uma pessoa decide transferir para o estrangeiro uma parte da sua fortuna, aquilo que faz é contactar o seu banco e manda transferir para uma outra filial, de um outro ou mesmo banco, «lá fora». Em Londres ou nas Ilhas Caimão, tanto faz. No nosso caso, de cada vez que um sujeito qualquer manda transferir umas centenas de milhar (ou uns milhões...) de euros para uma sucursal «lá fora» (de um banco internacional de renome) esse dinheiro deixa de estar na economia portuguesa. Isso enfraquece a posição dos bancos em Portugal e reduz a sua capacidade de financiamento à economia.

Como os bancos também utilizam os depósitos a prazo (como os «capitais próprios» e as «reservas») para poderem alavancar os seus próprios empréstimos, se os depósitos a prazo começarem a «fugir» para outros territórios, os bancos passam a necessitar de se «recapitalizar».

Até aqui a lógica deve ser simples de entender.

Acontece que, de cada vez que saem uns milhões (e saem muitas centenas de milhões, ano após ano), a banca portuguesa fica mais fragilizada e passa a ter menos dinheiro para emprestar às empresas (designadamente às empresas públicas), às famílias e ao próprio Estado (que depois do Tratado de Lisboa é obrigado a financiar-se junto da banca comercial). Depois, para compensar aquelas saídas, é preciso que os bancos portugueses (ou algumas empresas públicas e privadas que, de modo recorrente, precisam de financiamento) peçam dinheiro «lá fora». Ou seja, em resultado daquela saída de capitais, os nossos bancos e empresas públicas (entre outras) são obrigados a pedirem emprestado «lá fora» e muitas vezes com aval do Estado. Em consequência disso aumenta a nossa dívida soberana.

Uma vez feito este passe de prestidigitação – de converter em dívida pública as saídas de capitais privados – , os gestores dos «Fundos de Investimento» que receberam aqueles dinheiros vêm com todo o gosto «emprestar-nos» (a juros muito mais elevados do que estavam antes a receber)... o dinheiro que entretanto tinha saída daqui...

 

(os artigos assinados não reflectem necessariamente a opinião da IAC)