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Trocas e baldrocas

Imagine que tem um crédito à habitação indexado à Euribor e receia que a taxa venha a subir. Imagine também que há um vizinho que lhe propõe fazerem uma troca: ele paga esse crédito a taxa variável e você paga-lhe a ele a mesma prestação mas com juros a uma taxa fixa ligeiramente superior. Apesar de ser um pouco mais caro, a proposta pode fazer sentido para si: elimina o risco das variações da taxa. No mercado financeiro, isto é o exemplo de um SWAP, que quer dizer literalmente «troca». Tem algum risco para quem aceita a parte variável, é claro, e depende sempre das perspetivas de evolução das taxas dos dois agentes, mas é relativamente transparente e não vai muito além do risco que já havia no conjunto dos dois vizinhos.

A coisa complica-se quando se entra em negócios mais complexos. Imagine que o vizinho lhe propõe a mesma troca mas com mais duas condições: a taxa mantem-se fixa mas salta 5% se o preço do ouro aumentar mais de 10% num ano e, se a Euribor subir acima de 5%, você tem de pagar o empréstimo todo de uma vez. Agora já não estamos só a falar de cobrir risco... Bem vindo ao casino!

Claro que fazer uma aposta deste tipo é uma irresponsabilidade e pode ser considerada um crime se estivermos a falar de dinheiros públicos, mas há mais culpados nesta história, além da pessoa que aceita o negócio. O primeiro é o vizinho que lho propõe, com maior ou menor pressão, sabendo perfeitamente os riscos envolvidos. Aliás, é até muito possível que ele lhe ofereça negócios cuja complexidade esconda o verdadeiro risco envolvido.

O outro culpado é o próprio sistema político que permite que lhe seja oferecido um contrato deste tipo e que os tribunais defendam a sua legitimidade. Mais grave: durante anos andaram a dizer-lhe que o seu vizinho é muito esperto, percebe imenso de matemática e faz negócios tão complexos que pouquíssimas pessoas os compreendem. Supostamente isso é bom. Dizem que é a modernidade dinâmica, a «sofisticação financeira», quando na verdade se trata de um casino pouco transparente e frequentemente criminoso, já que o seu vizinho sabe muito mais dos «produtos» que anda a vender, do que algumas das pessoas que, iludidas, os compram.

O problema dos produtos financeiros complexos não é apenas a ingenuidade ou irresponsabilidade de uns e a ganância de outros. É o facto de haver um conjunto de «vizinhos» que anda há décadas a tentar fazer-nos crer que somos nós que não sabemos o suficiente para podermos compreender o sistema financeiro. Esses argumentos levaram ao desmantelamento dos entraves a que estes produtos circulassem livremente nos mercados, entrassem nas casas das pessoas e nos cofres do estado.

Não sabemos quais as condições associadas aos produtos financeiros que foram encontrados nas carteiras de entidades públicas, mas sabemos que eles tinham um risco muito elevado e que são mais um sinal dos perigos da «má vizinhança» entre os mecanismos dos mercados financeiros e o financiamento do estado.

Tal como na crise financeira internacional, a tendência para encontrar uns quantos culpados e ignorar os problemas evidentes do próprio sistema, deixa-nos a todos vulneráveis, à espera da próxima vez em que iremos aprender uns quantos conceitos de finanças «sofisticadas» à pressa para, pelo menos, percebermos o que nos obrigam a pagar dessa vez...

 

(Publicado originalmente em Ladrões de Bicicletas)