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Um problema de torneiras

Público, 23/10/2012

1.Temos uma dívida pública superior ao produto nacional. Segundo a troika, a dívida será de 124% do PIB em 2013 — e isto, sublinha-se, diz apenas respeito à dívida pública. As taxas a que temos de pagar este dinheiro parecem estar actualmente a rondar os 5% ao ano. Na realidade, é difícil saber exactamente. Cada fatia de financiamento vem com uma taxa diferente e cada uma delas ainda se divide por vários credores e depois há renegociações e trocas de títulos... Mesmo os especialistas têm dificuldade para encontrar os dados nas páginas oficiais, porque o Governo, tão lesto a meter-nos a mão no bolso e a tirar o pão da boca das crianças que desmaiam nas escolas, é avaro a fornecer informação.

Quanto à riqueza que produzimos, ela está não a aumentar, mas a encolher. Este ano deve encolher 3%. E para o ano não se espera nada melhor — a não ser que se acredite nos números do Orçamento de 2013, o que parece não ser o caso de nenhuma pessoa com os dois hemisférios cerebrais em comunicação.

O que temos é pois um problema de torneiras. Temos dois tanques com água: o tanque A tem 124 litros de água e uma torneira que despeja lá para dentro 5 litros de água por hora. O tanque B tem 100 litros de água e um ralo por onde se escoam 3 litros de água por hora. Vítor Gaspar jura-nos que, se esperarmos tempo suficiente, o tanque A vai ficar vazio e o tanque B vai ficar cheio. E, perante as expressões de dúvida à sua volta, lembra-nos que o país fez um enorme investimento na sua educação. É o argumento de autoridade (“Que raio! Se ele é assim tão caro, deve ser mesmo bom!”). Não é sofisticado, mas é eficaz. Talvez o tanque encha, talvez o outro se esvazie. Talvez ele faça milagres. Talvez faça prestidigitação. Não pode ser um aldrabão de feira ou um louco, um homem com uma educação tão cara!

É claro que, em rigor, mesmo com estes números, não é impossível pagar a dívida. Temos é de vender umas coisinhas. E há muito para vender. Podem vender-se as empresas públicas todas. Como muitas são monopólios naturais, os compradores levam como brinde uma clientela cativa. Pode vender-se o litoral para empreendimentos turísticos. Podem vender-se reservas naturais. Podem vender-se palácios e igrejas. Mas atenção: não convém pagar tudo demasiado depressa. Os credores vivem da dívida. Se não tivessem devedores, como viveriam os pobres diabos? Somos a galinha dos ovos de ouro. E eles não querem empresas, que dão trabalho. Querem dinheiro.

Claro que, mais cedo ou mais tarde, a dívida vai ter de ser renegociada. Mas o Governo quer que seja o mais tarde possível. Só quando a gansa já não conseguir pôr ovos. Até lá...

A renegociação da dívida poderá ser feita em redondilha maior ou menor, mas é inevitável e desejável. E a melhor maneira de lhe dar início seria declarar uma moratória aos juros da dívida. Juros agiotas, excessivos, criminosos, imorais. Seriam necessários sacrifícios, mas seriam sacrifícios que o país compreenderia.

2. A cada dia que passa, a teoria radical, esquerdista, anarquista, comunista, bombista, terrorista e cataclista (espuma ao canto da boca) da renegociação da dívida ganha mais adeptos. (Claro que não Pedro Passos Coelho, que se licenciou em Economia na Universidade Lusíada e que estudou afincadamente economia técnica, que é algo semelhante ao inglês técnico, mas em cadernos quadriculados.)

Desta vez foi Miguel Cadilhe que defendeu uma renegociação da dívida mas não a renegociação radical- esquerdista-anarquista- comunista-bombista-terrorista- e- cataclista (espuma ao canto da boca). Nada disso. Cadilhe defendeu na Fundação de Serralves a renegociação, mas uma “renegociação honrada”. Antes de mais, o facto de ter sido numa conferência na Fundação de Serralves faz toda a diferença. Há quem defenda a renegociação em discursos na rua ou na Aula Magna, o que é sinal de esquerdismo. Mas uma renegociação honrada defendida em Serralves é outra coisa. Para benefício dos menos versados em questões financeiras, explico que a “renegociação honrada da dívida” está para a “renegociação da dívida” como “fazer amor à merceeiro” está para “fazer amor”. É exactamente a mesma coisa, mas com um lápis na orelha.

3. A grande diferença entre este Governo e os outros é que os outros (mesmo os piores) queriam ser reeleitos. Este não se preocupa com as eleições. Que se lixem as eleições. O que este Governo quer é a pilhagem do Estado e dos cidadãos. Ser Governo de novo? Para quê, quando há tantas empresas agradecidas onde se pode arranjar emprego logo ao fim de quatro anos? A política está bem durante uns anos, mas só os tansos é que lá ficam. Para facturar a sério é na bolsa, na banca, nos off-shores.Alguém acha que Vítor Gaspar vai ficar na política, a ganhar só o ordenado de ministro ou deputado, para pagar o investimento que o país fez nele?


Comentários

volto sempre a esperar que haja informacao correcta e que nos ajude a perceber qual o melhor caminho para haver empregos para os filhos e velhice amparada para os reformados.
Se nao se escreve so como passatempo, que tambem e legitimo, julgo que ainda falta explicar como vamos distribuir verbas para todos os que querem aumentos (tropas,enfermeiros, professores...) e conseguir produzir em competicao com povos que ganham vinte vezes menos do salario medio (650€) daqui.
Eu sei que sabe bem dizer mal Gaspar e Cª mas se e para falar a serio ninguem espera que quem conseguiu por o dinheiro la fora o venha trazer para um pais falido com greves todos os dias e em que pelo menos aqui na minha zona ha mais fabricas fechadas que abertas e mesmo os cabeleireiros, cafes, lojas de roupa.. estao a fechar todos os dias.
Bem entao onde vamos buscar o dinheiro? Que credibilidade tem os que sempre andaram a clamar contra a perca da soberania com a CEE dizer que a Merkl tem que nos ajudar porque somos todos "europeus".
Eu tenho amigos na alemanha e ja nao fazem greve a dez anos e apesar de portugueses olham de lado para quem nao tem dinheiro para comer e avanca "corajosamente" para a greve -EP ;os do privado nem reclamam quanto mais greve.
Sinto que se fala sem honestidade e fico sem alternativa para votar a seguir.

Caro,

Eu vivo na Alemanha.
E o que os seus amigos dizem de os Alemaes nao fazerem greves é PURA MENTIRA.

Eles, os seus amigos poderao nao fazer greve, mas a sociedade Alema, diferente da portuguesa nunca deixou de participar activamente na defesa dos interesses dos cidadaos.

Os Portugueses pararam no tempo, à "sombra da bananeira" desde da entrada na CEE (hoje UE) confortável com os subsidios, ignorando a sua origem, proposito, ignorando o resultado final que está á vista e deixando que destruissem agricultura, pescas, industria, e por fim o estado social.

Os movimentos de cidadania existem ,sao muitos e activos na Alemanha.
Os sindicatos existem, sao muitos com muita influencia nas decisoes do pais e activos na Alemanha.

Fazem manifestacoes sim , protestos e greves como qualquer sociedade democratica e dentro do seu direito de exigirem melhores condicoes, de exporem o que está mal e proporem solucoes para melhorar.

Devemos abrir as nossas mentes a estes movimentos civicos, isentos e independentes de qualquer cor partidária que nos governou desde o 25 de Abril de 1975. ELES SOMOS NÓS, OS CIDADAOS. Eles sao quem teve a coragem de sair do sofá e vir para a rua perguntar PORQUE? a quem nos governa e governou mal nos ultimos 36 anos.

Volte, leia, nao acredite em tudo o que lhe digam e tenha uma opiniao critica e construtiva

Obrigado e PARABÉNS AO IAC.

Finalmente os meus filhos perceberam porque lhes "passava" eu tantos problemas de "torneirinhas" (e eles tornaram-se mestres). Obrigado por mais esta lição!
Acho que "o mais tarde possível" se destina a ter o "aspirador" a sugar o máximo - passe a publicidade: http://auditoriacidada.info/article/%C2%AB-lusoponte-%C3%A9-um-grande-as...
Mas há aspiradores maiores e com "ralos" mais largos! Assim se consigam auditar mais alguns casos, talvez uma rodoviária, uma de saude, um BPN - este é só um mesmo, embora alguns autores digam que há mais (cruzes, canhoto!)
Há quem diga mal do Krugman e de um almoço (não sei nada disso), mas ele citou em "Acabem com esta crise, já!", 2012, Ed. Presença, pg 100: "Se algum deles terminar o mandato usufruindo de grande estima por parte do grupo de Davos, há uma infinita série de postos na Comissão Europeia, no FMI ou em organismos afins para os quais poderá ser elegível mesmo que seja desprezado pelos seus próprios conterrâneos. Aliás, ser completamente desprezado seria de certa forma uma mais-valia."
Tive a visão de um Durão, de um Constâncio, de um Gaspar, de um Samaras, de um Monti (posso ser injusto por excesso ou por omissão). Mas que parece a realidade, parece, digo eu.
Alexandre Romeiras