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Uma história e dois finalmentes

A Grécia restruturou a dívida um bocadinho. A UE disse que seria uma vez sem exemplo. Agora a Irlanda também restruturou a dívida, com um “cortezinho de cabelo” ao BCE. As reestruturações andam aí.

Isso significa que os credores já perceberam que é preferível manter o devedor com a cabeça fora de água do que afogá-lo de uma vez por todas. Afogados não pagam dívidas.

A nossa reestruturação – a reestruturação da dívida pública portuguesa - está também na calha: um alargamento das maturidades dos empréstimos dos fundos da UE, isto é, mais tempo para pagar, à mesma taxa de juro. Isso é mau? Não, não é mau. Mas, será que é bom?

Deixem-me explicar a minha dúvida com uma metáfora hidráulica.

Imaginem alguém num tanque de pés e mãos atados e água pelos queixos. [Às vezes sinto-me assim]. Entretanto há outro alguém que vai gritando ao primeiro: “salta, pula, porque quem não salta não paga dívidas”.

Mas a água continua a entrar e a situação torna-se aflitiva: mesmo saltando, começa a ser impossível respirar. Nesse momento, o alguém que manda saltar, decide deixar sair alguma água do tanque. Será que a água vai descer ao ponto do primeiro alguém poder respirar à vontade? Nem pensem nisso. Descerá apenas até onde o primeiro tenha de continuar a saltar e a pular para respirar alguma coisa enquanto paga dívidas.

Ocorre-me, no entanto, outro final para esta história. O primeiro alguém respira fundo para encher os plumões e poder deixar de saltar e pular como um doido durante uns segundos, concentra-se e consegue desamarrar as mãos e os pés. Depois nada para a borda do tanque, a custo é certo, e sai.

Qual dos finais prefere? É que ele há reestruturações e reestruturações.