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Victor Louro tomando café com Ricardo Salgado...

É verdade, vim tomar um cafézinho com o Presidente do BES. Não que ele me tenha convidado, ou eu a ele, mas depois de o ouvir na rádio, tive de o ler todo, na entrevista ao JN. E aproveitei-me da irresponsabilidade da minha formação não ser de economista; e do atrevimento da minha juventude (da mesma idade de RS); e do facto de sermos ambos filhos da escola (Reserva Naval - RN); para vir à conversa com este homem público (é isso, os homens públicos estão sujeitos a que o público se meta com eles...).

É claro que não vou discutir por não ter as mesmas posições que eu tenho sobre  a situação portuguesa... Mas como é uma pessoa que sabe desta poda, e os seus pensamentos podem influenciar os poderes políticos (não podem?...), talvez possamos trocar umas impressões.

 

1.  RS acha que sim, que «a Europa está a questionar a austeridade». E que «se a Europa está a começar a mudar (...) é porque as coisas vão no bom caminho». Claro que percebo o que quer dizer, mas as frases traíram-no: se a Europa está a começar a mudar, é exactamente porque as coisas não vão no bom caminho; se fossem, não precisava a Europa de mudar. Mas, daí, parte para a afirmação de que «os países que compõem a União Europeia e monetária não estão na disposição de suportar mais défices orçamentais de outros países».

Ora bem, RS sabe (até porque é um economista e banqueiro experiente) que esses défices se acentuaram dramaticamente com a instituição do euro. Sabe que uns países (genericamente do Norte) robusteceram os seus PIB e contas externas, exactamente à custa das economias dos países (não genericamente do Sul) cujas economias não estavam preparadas estruturalmente para esse projecto do euro; e que estes viram os seus PIB evoluírem muito lentamente, e as suas contas externas deteriorarem-se dramaticamente; e que depois, em 2008, veio aquela directriz europeia (quem manda na Europa?) no sentido de os estados promoverem imediatamente o investimento público e ajudarem os bancos em risco pela sofreguidão de que se alimentaram, face à crise importada  do outro lado do mar... Claro que sabe isso, antes mesmo de eu o ter aprendido.

Por isso não lhe fica bem alinhar com o nariz torcido dos tais países (agora ricos): então agora, depois de encherem a barriguinha à nossa custa, é que não estão para suportar mais défices orçamentais de outros países? Então só somos união enquanto todos colaboramos no seu objectivo de enriquecimento, mesmo que à custa da destruição da estrutura produtiva dos outros?...

Claro que Portugal e outros países são responsáveis por terem querido entrar no euro a todo o custo. Mas também é claro que não foram os portugueses que quiseram: foram uns senhores, que comandam os partidos do arco do poder (e não outros) que quiseram por nós, sem nos perguntarem nada, sem referendarem a ideia (apesar dela ser tão boa!). E agora, toca a todos pagarem...

 

 2. E eis a surpresa: RS e eu estamos de acordo nisto: «por causa do  envelhecimento da Europa (…) é preciso que haja um novo estado de espírito e um conjunto de novas regras para que o Estado seja sustentável». E acrescenta: «Não pode haver o prejuízo das reformas daqueles que descontaram toda a sua vida. Agora (e encosta-se a Medina Carreira) o Estado faliu (…) e como é que essas situações podem ser garantidas? Portanto, tem de haver um pouco de compreensão entre todos».

Ora aqui começamos a estar em desacordo!

Que «pouco de compreensão entre todos» é que recomenda? Que quem descontou segundo as regras impostas pelo Estado (não eram facultativas, como sabe) com o exclusivo objectivo de garantir as pensões a partir da idade e com o valor que o Estado estipulou, agora aceite um cortezinho (vá lá, 10% não custa muito, e sempre é para ajudar o País...)? Mas o senhor já viu algum dos senhores ou senhoras (que costumam ser mais compreensivas e generosas...) que auferem grandes pensões (geralmente não resultantes de carreiras contributivas!) abdicar de uma parcelazinha a favor do Ministério das Finanças ou de obras de solidariedade social (ou mesmo de caridade)?

RS usou a expressão conforto para adiantar-se à crítica que por essa opinião lhe poderia ser assacada. E de facto, 10% numa pensão de 10 000€ são 1 000€, enquanto numa pensão de 1 000€ são apenas 100€. Não acha que quem recebe dez mil pode mais facilmente acomodar uma perda de mil do que quem recebe mil acomodar uma redução de cem? É por isso que falou bem no conforto dos ricos (chamemos-lhes assim, aos que auferem essas grandes pensões, que não é o seu caso, obviamente, porque continua a contribuir pelo seu trabalho – é uma vantagem de trabalhar na privada!). Mas também sabe que há quem receba 170 000€ por mês, em dinheiro, além de outras mordomias impensáveis (aquele seu antigo colega, aliás muito católico... - a última vez que cruzei com ele, estava ele a sair da missa no Chiado, ainda aspergido de água benta, suponho).

 

3. E venho à parte final da sua entrevista: «Temos de continuar a ter moderação salarial, reduzir os custos, reduzir as remunerações em todo o lado. Toca a todos.»

Toca a todos – desculpe-me a expressão – o tanas! Bem sei que os CEO & Companhia das grandes empresas (agora privadas) ganham pouco ordenado (são mais retribuídos por prémios e outros pagamentos em géneros), apesar de serem da ordem das várias dezenas de milhares por mês e como se o ano tivesse 14 meses (sim, porque anos de 12 meses é para funcionários públicos e reformados).

RS sabe melhor, e desde mais cedo do que eu, que a tal produtividade não depende só dos salários, nem principalmente deles – se assim fosse, os países africanos, etc., o chamado Terceiro Mundo, estariam noutra situação, não é verdade?... E já o ouvi referir, aliás justamente, os chamados custos de contexto como determinantes do sucesso da economia. Ora, alguém travou a loucura dos custos de contexto associados às tarifas eléctricas, aos custos dos transportes e dos combustíveis, das comunicações, dos custos da Justiça (não os aumentaram, até?), dos juros e spreads cobrados pelos bancos? Não é preciso mexer nisso, com consequências só positivas sobre a economia e as pessoas, antes de destruir a capacidade de sobrevivência das pessoas e das famílias?

Eu adivinho que concorda comigo, se calhar eu estou a retirar as suas afirmações do contexto em que as proferiu. Mas não me coíbo de o fazer, porque assim contribuo para que RS possa melhorar o discurso, e influenciar melhor os detentores (?) do poder.

 

 4. E com esta me vou. Desconfiando que há outros caminhos para tirar o País do atoleiro em que o meteram. Mas com a certeza de que pela via até agora seguida, ai isso não vamos lá, não. Por esse caminho ainda os credores ficam a ver navios... E como há GENTE, muita gente concreta, pais, filhos e avós, a sofrer as consequências destas políticas exterminadoras, é urgente inverter a marcha – já! Contamos consigo?

 

Saúde, e até outra vez. Boa tarde, camarada RN.